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domingo, 18 de abril de 2010

A diplomacia que aí vem. José Sequeira Carvalho

"A África será certamente uma das prioridades duma colaboração estratégica franco-britânica, que beneficiará como tem acontecido nos últimos trinta anos, do apoio da Alemanha. A política europeia para África será fortemente influenciada pelos interesses de britânicos e franceses. No entanto, a liderança franco-britânica em África se bem que necessária, não será suficiente. Não só terá que ser aceite pelos outros Estados-membros, mas também pelas outras instituições europeias, nomeadamente pelo Parlamento europeu, que terão que ter um papel ativo e central. Na África Subsaariana, Portugal poderá assumir um papel importante."

Serviço Europeu

de Ação Externa

Desafio e oportunidade para Portugal e PALOP

José Sequeira Carvalho *

A criação do Serviço Europeu de Ação Externa que está a ser implementada no seguimento da entrada em vigor do Tratado de Lisboa, constitui um importante desafio para Portugal e para a diplomacia portuguesa, mas este desafio constitui igualmente uma oportunidade que deve ser aproveitada para afirmar e valorizar os interesses geopolíticos portugueses no quadro institucional e politico europeu.

A França e o Reino Unido e numa menor dimensão a Alemanha são os únicos países da União Europeia com políticas externas, da defesa ao comércio, verdadeiramente globais. Os seus passados imperiais leva-os a prosseguirem interesses em todos os continentes. Além disso, os dois primeiros são as maiores potências militares da UE (as únicas com capacidade nuclear) e as duas com o estatuto de membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Reconhecem, porém (mesmo que não o admitam), que precisam do peso da Europa para preservarem o seu estatuto global. Isoladamente, não o conseguem.

Para isso, estes três países estão fortemente empenhados no serviço europeu de ação externa. O que muitos chamam o serviço diplomático europeu constituirá, muito provavelmente a longo prazo, a reforma do Tratado de Lisboa com maior impacto na política da União Europeia e dos seus Estados-membros. Pode começar a construir-se uma política externa europeia digna desse nome. E Londres, Paris e Berlim querem liderar essa construção. As suas tradições diplomáticas, a qualidade dos seus aparelhos diplomáticos, os seus estatutos e as suas capacidades políticas e militares permitem-lhes esse privilégio.

A África será certamente uma das prioridades duma colaboração estratégica franco-britânica, que beneficiará como tem acontecido nos últimos trinta anos, do apoio da Alemanha. A política europeia para África será fortemente influenciada pelos interesses de britânicos e franceses. No entanto, a liderança franco-britânica em África se bem que necessária, não será suficiente. Não só terá que ser aceite pelos outros Estados-membros, mas também pelas outras instituições europeias, nomeadamente pelo Parlamento europeu, que terão que ter um papel ativo e central.

Na África Subsaariana, Portugal poderá assumir um papel importante.

Tal como a maioria dos países europeus, Portugal não terá uma política externa global, mas tem certamente uma política externa com fortes interesses e laços regionais que se estendem quase por todos os continentes. E em África, depois do Reino Unido e da França, Portugal é um dos Estados-membros que dispõe duma maior capacidade de influência e de uma maior empatia relativamente aos Estados parceiros africanos.

A mesma coisa se pode dizer da América Latina, relativamente aos interesses espanhóis, com a incidência especifica do pais dominante na região ser o Brasil, uma das potencias emergentes ao nível mundial, um pais que assume cada vez mais um papel de relevo, a todos os níveis, no contexto da globalização.

Na Ásia, podemos contar, em vários países importantes como a Índia, a China, a Indonésia e a Malásia, com a existência e a prevalência de varias diásporas que mantiveram ao longo dos séculos uma ligação profunda e ativa com a memória histórica portuguesa.

O caso de Timor Leste deve merecer um tratamento e uma cooperação especiais quer ao nível bilateral, quer no âmbito da CPLP.

A CPLP deverá ser chamada a alargar e a reforçar o seu campo de atividade, e deixar de estar limitada ao papel de um simples fórum de diálogo político e diplomático entre os PALOPS.

A CPLP terá de se tornar cada vez mais numa estrutura de cooperação multilateral e de coordenação ativa entre os PALOPS, uma estrutura dotada de uma verdadeira capacidade de iniciativa estratégica e dos meios que para tal se revelem necessários.

Como Estado membro da UE fazendo a interface com os outros países da CPLP, Portugal terá de ser chamado a conceber e implementar estratégias de ação e de influencia que lhe permitam agir nas instituições europeias e no serviço diplomático europeu de modo a que a política europeia para África, para a América Latina e para a Ásia tenha não só um forte contributo português, mas igualmente uma forte influência real dos PALOPS e da CPLP.

domingo, 23 de novembro de 2008

Iberismo «localista» retrógado. Escreve Sequeira Carvalho

" O iberismo não é mais do que uma das formas do tradicional isolacionismo timorato português, uma justificação fácil para o corte com as dinâmicas mais avançadas da economia europeia e mundial". Nas duas últimas décadas assistiu-se a «uma estratégia espanhola deliberada de se apossar e de controlar os sectores chave para o crescimento económico português»


Iberismo «localista» retrógado
ou internacionalização dinâmica ?


Identidade económica

de Portugal

na encruzilhada



Sequeira Carvalho *

Qual é a posição da Espanha na estratégia internacional de Portugal ? Quais são as consequências do iberismo na economia portuguesa ? Devemos começar por analisar o surto iberista do final do século XIX, quando políticos influenciados por este ideário ocuparam posições destacadas e deixaram uma herança que se repercutiu nas décadas posteriores (1905, 1926).

O iberismo não é mais do que uma das formas do tradicional isolacionismo timorato português, uma justificação fácil para o corte com as dinâmicas mais avançadas da economia europeia e mundial. Isto conduziu, em paralelo, à recusa da concorrência estrangeira e das novas tecnologias, o que teve efeitos negativos na economia portuguesa, a qual só viria a convergir substancialmente, muito mais tarde, quando se ligou à Europa (além-Espanha).

Deve-se abordar a questão numa perspectiva mais actual tendo em conta que nas duas últimas décadas se assistiu não só a um grande desenvolvimento das relações económicas bilaterais entre Portugal e Espanha mas igualmente a uma estratégia espanhola deliberada de se apossar e de controlar os sectores chave para o crescimento económico português; esta situação constitui um facto histórico novo, pelo menos no último século, e dela deve fazer-se uma análise crítica e objectiva de alguns argumentos que pretendem justificar esta situação.

Temos igualmente de salientar os perfis económicos diferentes dos dois países e sublinhar a importância para Portugal, com vista a melhorar a sua posição estratégica, de privilegiar outros laços, menos dominadores, não só no seio da União Europeia, em particular com os países de dimensão semelhante, mas sobretudo com os países do espaço lusófono.

* Diplomata