domingo, 6 de fevereiro de 2011

CARTA DO CANADÁ Se houver quem responda

"Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?"
Porquê, RTP, porquê?

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito

Fernanda Leitão

A situação é esta: nós, os emigrants, gostamos da RTP na sua vertente internacional, embora achemos um despautério o exagerado espaço que dá à pequena política, isto é, às opiniões, em geral disparatadas, de uns senhoritos partidários que mais não querem do que o poder e com provas dadas de que não valem nada. Ou a verdadeira entronização de uns sujeitos que se dizem humoristas e não passam de choldra. Mas, tirando isto, queremos bem aos programas que nos dizem como de facto está a nossa terra, os que nos trazem novas culturais, os que nos ensinam e divertem.

Mas começamos a ficar de pé atrás. Daí à completa desconfiança, vai um passo.

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito com que a RTP falha horários e programas que exigem continuidade. De repente, sem explicações, desapareceram as séries LIBERDADE 21, PAI À FORÇA e CONTA-ME COMO FOI. De repente também, sem dizerem água vai, passam algumas destas séries a destempo, sem terem a delicadeza de exibir ao menos um resumo do passado para que possamos encontrar o fio da meada. O mesmo se passa com os horários que deviam estar na internet e muitas vezes estão ausentes dias seguidos, o que leva logo os emigrantes a dizer que “lá em baixo lidam mal com os computadores”, convicção que lhes vem das grandes secas passadas em repartições públicas, quando se deslocam a Portugal.

E agora, confirma-se que a RTP acaba com o programa CONTACTO, feito em todas as comunidades espalhadas pelo mundo, já em Abril próximo. É uma muito má decisão acabar com aquilo que é feito pelas comunidades, provavelmente para impingir uma imitação feita por equipas vindas de Portugal que não sabem de todo como é a imigração e, quase sempre, se deixam manipular por grupos de interesses locais, ávidos de promoção e palco mas sem representarem serviço às comunidades. É verdade que há programas CONTACTO que precisam de melhorar a sua qualidade mas que, apesar disso, dão o retrato da comunidade emigrante que servem. Cabe perguntar porque é que as equipas locais do CONTACTO não merecem formação e reciclagem, se para vir cá fora pedir votos e dinheiro é a prática correntia dessa gente da coisa pública.

É importante este programa dar o retrato fiel da comunidade? É muito importante, se partirmos do princípio que só se ama aquilo que se conhece. Porquê a população residente em Portugal não há-de conhecer os que vivem longe para os entender melhor? Dir-me-ão, como já ouvi, que o programa PORTUGUESES NO MUNDO é quanto basta. Não basta, embora o programa seja interessante e bem feito, porque ali se contam apenas as vidas de alguns portugueses, em geral com bom grau académico, que por aventura e gosto foram viver para o estrangeiro. Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?

Porquê esta tentação colonialista, RTP? Noutros tempos é que Portugal impunha tudo às colónias: desde o vinho e o azeite, até aos livros escolares. Sei do que falo, porque sou do chamado Ultramar. Sou ”ultramada” como milhares doutros: aprendemos botânica e zoologia em livros que nos falavam de vegetais, frutos e animais que não havia na nossa terra. Tivemos de decorar todos os rios, afluentes e estações de caminho de ferro. Foi uma estupidez que deu no que deu. É isso que se quer de novo? Achará a RTP que os emigrantes são portugueses de segunda como o salazarismo achava dos brancos nascidos em África? Será por isso que não nos liga importância, considerando-nos o “Resto do Mundo” como o PSD nos baptizou há uns largos anos?

Na blogosfera circulam prosas iracundas contra os altos salários auferidos por vários membros da RTP. Eu não me impressiono com altos salários desde que os beneficiados correspondam com excelente trabalho e assinalável produtividade. A bom entendedor... E também sei que a blogosfera é o vazadouro de quanto há de bom e mau. Mas é minha convicção que a RTP tem de ser prudente, sensata e inteligente nas decisões a tomar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ALFREDO BARROSO Agora, armazenar água




"... a Direita identifica sempre sem qualquer dificuldade os seus interesses comuns, pondo de lado as suas divergências, a Esquerda identifica sempre com toda a facilidade as suas divergências, ignorando os seus interesses comuns."
Esquerda desfeita,

direita satisfeita!

Alfredo Barroso *

Há, hoje, uma diferença fundamental, cada vez mais evidente, entre a Direita e a Esquerda: enquanto a Direita identifica sempre sem qualquer dificuldade os seus interesses comuns, pondo de lado as suas divergências, a Esquerda identifica sempre com toda a facilidade as suas divergências, ignorando os seus interesses comuns.

Desde Blair e o «New Labour», e de Schröder e o «Novo Centro», a esquerda social-democrata europeia aderiu aos princípios e métodos do neoliberalismo, em nome da globalização – e deixou de pensar em verdadeiras alternativas políticas, económicas e sociais consistentes e credíveis. Em suma: deitou pela borda fora os princípios básicos da social-democracia genuína, esbatendo quase por completo as diferenças que a separavam da direita.

Em Portugal, a degradação, decadência e deliquescência dessa esquerda social-democrata, representada pelo PS, começou com Guterres e consolidou-se com Sócrates. Claro que a culpa não é só do PS. Mas o socialismo democrático já não vai além da mera retórica.

E agora foi mesmo um ar que lhe deu! Esquerda desfeita, Direita satisfeita!

É cada vez mais evidente que a Esquerda, no seu conjunto, vai ter de armazenar muita água para a longa travessia do deserto que tem pela frente… Como os camelos!
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* Comentador. Antigo chefe da Casa Civil do PR Mário Soares.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A cor da Alemanha

As sete eleições estaduais que terão lugar na Alemanha em 2011 condicionarão a atitude anti-europeia da chanceler?
Os sete imbróglios de Merkel

 Cinco eleições em maio e duas em setembro

Wolfgang Silva von Weizsäcker *

Estamos recordados das hesitações alemãs sobre a defesa da Europa (crise grega) no ano passado, que se apontava serem provocadas pelo receio de perder as eleições na Renânia do Norte Vestefália - RNV, o estado mais populoso da República Federal. E assim veio a acontecer: a RNV é entretanto governada por uma coligação entre os social-democratas e os verdes, sem maioria absoluta mas tolerada pela esquerda. Entretanto, há até a hipótese de ali virem a ser convocadas novas eleições, devido a uma disputa em torno de um orçamento retificativo, mas nem por isso melhoraram as perspectivas da coligação chefiada por Ângela Merkel, aliando os democratas-cristãos aos liberais.

Aliás, as perspectivas são péssimas um pouco por toda a Alemanha, traduzindo-se essencialmente numa quebra vertiginosa dos liberais, partido do contestado vice-chanceler e Ministro dos Negócios Estrangeiros, que baixaram de 14,6% nas eleições de 2009 para uma intenção de voto de 4%, percentagem que lhes não dá acesso ao Parlamento Federal, e numa espantosa subida nas intenções de voto nos verdes para os 20%.

Até Maio haverá cinco eleições, começando dia 20 de Fevereiro em Hamburgo, com a anunciada derrota dos partidos da coligação de Merkel; em 20/27 de Março votar-se-á na Sachsen-Anhalt, onde os social-democratas se deverão reforçar, na Renânia Palatinado, onde devem continuar a governar, e no importante e rico Baden-Würtemberg, onde os contrutores de mercedes e porches estão a pensar em fazer história, ao darem o maior número de votos aos verdes (!) que poderiam coligar-se com os social-democratas, o que só por si tornaria irrelevantes as eleições em Maio na pequena cidade-estado de Bremen, já governada pela dita coligação. Em Setembro, finalmente, haverá mais duas eleições, em Meckenburg-Vorpommern e Berlim, sendo o principal motivo de interesse a possibilidade de, também aqui, os verdes poderem passar a partido mais votado.

Mesmo que Merkel ainda esteja a persistir na atitude política do ano passado, perdido o Baden-Würtemberg de nada lhe adiantaria manter o oportunismo europeu que tem prosseguido. Até pode acontecer que os eleitores alemães comecem a entender que não estão a pagar a crise do euro, porra nenhuma, mas, pelo contrário, a crise não tem impedido o aumento do PIB e das exportações, a diminuição do desemprego, a melhoria dos salários e do consumo - finalmente - e toda a gente lhes vai ficar a dever o dinheiro do apoio ao euro e à Europa.

Que mais quererá uma sociedade tão crescida que se pode permitir um governo fracote e ainda ganhar com o apoio aos outros?

* Politólogo luso-alemão