quinta-feira, 3 de março de 2011

COM A DEVIDA VÉNIA Crise e oportunidade

"Esta Europa de discurso duplo e duplicidade de actuação – para salvaguarda dos seus próprios interesses económicos e de segurança – conseguirá restaurar o seu prestígio e a confiança dos países vizinhos do Mediterrâneo do Sul, salvo se apoiar, de forma inequívoca, a transição democrática desses países, se perder o medo ao islamismo, se reforçar a cooperação económica, e se incrementar os seus contactos com a sociedade civil destes países e com os respectivos actores políticos emergentes"

O Mediterrâneo, de novo

no centro do mundo
A revolução de “jasmim” dos jovens árabe-muçulmanos
parece demonstrar que a democracia é, de facto, um valor universal, compatível com a crença no Islão


Maria Regina Flor e Almeida *

As revoltas no mundo árabe, a que temos vindo a assistir, estão neste momento a reclamar a centralidade do Mediterrâneo, contra o movimento de deslocação do centro de gravidade da política mundial para a Ásia, conforme vinha sendo observado e proclamado desde o início do presente século XXI.


Se é certo que esta deslocação do centro de gravidade da política mundial para a Ásia em muito se deve ao rápido e pujante crescimento económico da China e da Índia - por isso mesmo consideradas potências emergentes -, o que ratifica a centralidade do factor económico na política internacional e na dinâmica da comunidade mundial, também é certo que a atenção que, de súbito, requer a região do Mediterrâneo, graças às revoluções de “jasmim” que ali se desencadearam, sobreleva de um factor eminentemente político e social, que põe em risco a segurança e a estabilidade, não apenas da região em si, mas, também, das regiões vizinhas, num arco de círculo que se estende desde o Atlântico ao Pacífico.

E está ainda por ver até que ponto o efeito de contágio destas revoluções da sociedade civil e dos jovens dos países árabes já afectados – Tunísia, Egipto, Líbia, Argélia, Marrocos, Yémen, Jordânia, Síria, Bahrein – não servirá de rastilho para outros países (em que já pontua o Irão), igualmente detentores de regimes autocráticos e avassalados pela desesperança dos jovens, e para outros países mais afastados, mas, mesmo assim, interligados neste mundo global em que vivemos.

A pobreza, a corrupção da classe política, o imobilismo político e a falta de democracia, lançaram para a rua milhares de jovens que vêm protagonizando a mais vasta manifestação da sociedade civil da geografia planetária, mas que tem afectado, sobretudo, as regiões do Magrebe, do Macherreque e do Médio Oriente, com risco de se propagar a outras regiões.

Mas um outro dado que ressalta deste movimento é o próprio imobilismo da Europa, que, mergulhada na sua própria crise institucional, política e financeira, e temerosa pela ameaça da Jihad islâmica, não consegue reagir, atempadamente e de forma coerente com os valores que defende, perante a súbita mudança dos regimes árabes vizinhos e o clamor da juventude dos países afectados por fortes assimetrias e por governos que não respondem às suas exigências democráticas e económicas.

Sendo embora evidente que nenhum país observador conseguiu dar conta do que se gestava, aparentemente de forma silenciosa, no seio dessa população juvenil, é bem verdade que, mesmo depois de a revolta eclodir, a União Europeia não conseguiu acertar o passo entre os seus membros, nem adoptar uma atitude pró-activa a favor das legítimas expectativas das sociedades afectadas. Reagiu tarde, de forma confusa e receosa, e, mesmo assim, parece tê-lo feito sob o chapéu da iniciativa norte-americana que, quebrado o espanto inicial, conseguiu responder com alguma contundência e oportunidade, ao exigir o fim da violência dos regimes contestados, a urgente retirada desses governos e uma rápida transição política para a democracia.

A duras penas, esta Europa de discurso duplo e duplicidade de actuação – para salvaguarda dos seus próprios interesses económicos e de segurança – conseguirá restaurar o seu prestígio e a confiança dos países vizinhos do Mediterrâneo do Sul, salvo se apoiar, de forma inequívoca, a transição democrática desses países, se perder o medo ao islamismo, se reforçar a cooperação económica, e se incrementar os seus contactos com a sociedade civil destes países e com os respectivos actores políticos emergentes.

O tempo é de incerteza, pois não se sabe o caminho que estas revoluções de “jasmim” irão adoptar no futuro; e é de incerteza, também, porque se desconhece, ainda, qual a amplitude destes movimentos de protesto e revolta, não sendo de estranhar a sua eclosão noutros pontos do globo, tornando mais frágeis os laços de muitos países terceiros com a Europa e mais instável o ambiente de paz e segurança mundial. São muitos os países do Terceiro Mundo, cujos regimes autocráticos se forjaram à sombra das potências coloniais europeias e persistiram graças a essa duplicidade europeia, e também norte-americana, que poderão ver-se abalados por esta nova onda de protestos que ameaça irromper onde quer que exista uma grande massa de população juvenil descriminada, tanto política, como economicamente. E estou a lembrar-me, por exemplo, de muitos países africanos e de alguns países asiáticos, o que dará novos contornos fronteiriços às zonas de turbulência, por um lado, e às zonas em vias de democratização, por outro, mesmo em regiões onde a fronteira com o Ocidente era traçada pela religião.

Algumas certezas parecem-nos agora inabaláveis. A primeira, prende-se com o paradigma da religião islâmica contrária à democracia. A revolução de “jasmim” dos jovens árabe-muçulmanos parece demonstrar que a democracia é, de facto, um valor universal, compatível com a crença no Islão, ditada pelo Corão.

A segunda, diz respeito ao papel da política no seio das sociedades, mesmo as mais deterioradas em termos de liberdades e de direitos humanos. Et pour cause!...


Outra certeza prende-se com a posição da Europa no mundo e com o progressivo esbatimento de um papel político central, quando também está em risco de perder o seu lugar de “gigante económico” mundial, por falta de reacção, de unidade, de renovação e de inovação. Embora situada numa região charneira do mundo, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, com ramificações para outras zonas estratégicas do globo, a Europa terá cedido o seu lugar, vendo afastar-se, mais ainda, a hipótese de recuperar o seu antigo prestígio internacional e de alcançar o ambicionado papel de “global player”.

No entanto, esta repentina crise às portas da Europa, que voltou a fazer convergir todas as atenções no Mediterrâneo, pode constituir uma janela de oportunidade se, rapidamente, as principais potências ocidentais – a UE e os EUA, principalmente – se coligarem, não para destituírem, pela guerra, um ditador alegadamente detentor de armas de destruição maciça, como no Iraque, ou para, através da guerra, capturarem um terrorista islâmico, como Bin Laden, mas para ajudar as sociedades mais vulneráveis e a sua juventude que pretendem ver-se livres do jugo de regimes ditatoriais e corruptos, e de estereótipos das democracias ocidentais.

Esta pode ser, também, uma janela de oportunidade para que a Europa e os EUA se concertem para contribuir, de facto, na criação de zonas de estabilidade e de desenvolvimento, nomeadamente, nas regiões da sua vizinhança próxima, como sejam o Atlântico e o Mediterrâneo.


Lisboa, 02.03.2011

Diplomata, doutora em relações internacionais

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Censura. Brasil a seguir à Líbia...

COM A DEVIDA VÉNIA  Estado de S.Paulo, 16/02/2011

Brasil bate recorde
de censura ao Google 



Gabriel Manzano *

Só na primeira metade do ano passado, o Google foi obrigado por autoridades brasileiras a tirar do ar 398 textos jornalísticos. Foi recorde mundial do período. O dobro do segundo da lista, a Líbia. O dado está no relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), divulgado ontem em São Paulo.

Além disso, nos dias finais da corrida eleitoral brasileira os juízes do País emitiram 21 ordens de censura, revela uma pesquisa do Centro Knight para o Jornalismo, do Texas (EUA). Muitas agências de notícias foram também multadas ou tiveram de remover conteúdos. “Esse quadro mostra que a censura e a autocensura, que vem junto, estão atingindo níveis muito sérios no Brasil”, resumiu Carlos Lauria, coordenador do CPJ, que veio ao Brasil apresentar o levantamento Ataques à Imprensa em 2010. Ele distribuiu ainda outro texto menor sobre a situação na América Latina, em encontro promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). “Nossos levantamentos apontam 44 jornalistas mortos em serviço e 145 presos, em todo o mundo, no ano passado”, resumiu.

A censura ao Estado, hoje em seu 565.º dia, é o destaque de abertura do levantamento sobre o continente. “É espantoso que, num país como o Brasil, um dos maiores jornais seja proibido de noticiar um grande escândalo, que envolve figuras políticas conhecidas. Não consigo imaginar o The Washington Post sendo proibido de publicar algo sobre um ex-presidente americano”, disse ele. Lauria vai a Brasília amanhã, onde se reunirá com autoridades do Planalto, da Secretaria das Comunicações e dos Direitos Humanos. A agenda inclui uma visita ao Supremo Tribunal Federal.

Artifício. Os levantamentos do comitê, nos cinco continentes, apontam um novo artifício dos governos para impedir o trabalho da imprensa: eles enquadram os jornalistas em crimes de outra ordem, como subversão ou atos contra o interesse nacional, nos quais as leis sobre imprensa não se aplicam. Isso tem ocorrido no Oriente Médio, no Casaquistão, na África.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

CARTA DO CANADÁ Se houver quem responda

"Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?"
Porquê, RTP, porquê?

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito

Fernanda Leitão

A situação é esta: nós, os emigrants, gostamos da RTP na sua vertente internacional, embora achemos um despautério o exagerado espaço que dá à pequena política, isto é, às opiniões, em geral disparatadas, de uns senhoritos partidários que mais não querem do que o poder e com provas dadas de que não valem nada. Ou a verdadeira entronização de uns sujeitos que se dizem humoristas e não passam de choldra. Mas, tirando isto, queremos bem aos programas que nos dizem como de facto está a nossa terra, os que nos trazem novas culturais, os que nos ensinam e divertem.

Mas começamos a ficar de pé atrás. Daí à completa desconfiança, vai um passo.

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito com que a RTP falha horários e programas que exigem continuidade. De repente, sem explicações, desapareceram as séries LIBERDADE 21, PAI À FORÇA e CONTA-ME COMO FOI. De repente também, sem dizerem água vai, passam algumas destas séries a destempo, sem terem a delicadeza de exibir ao menos um resumo do passado para que possamos encontrar o fio da meada. O mesmo se passa com os horários que deviam estar na internet e muitas vezes estão ausentes dias seguidos, o que leva logo os emigrantes a dizer que “lá em baixo lidam mal com os computadores”, convicção que lhes vem das grandes secas passadas em repartições públicas, quando se deslocam a Portugal.

E agora, confirma-se que a RTP acaba com o programa CONTACTO, feito em todas as comunidades espalhadas pelo mundo, já em Abril próximo. É uma muito má decisão acabar com aquilo que é feito pelas comunidades, provavelmente para impingir uma imitação feita por equipas vindas de Portugal que não sabem de todo como é a imigração e, quase sempre, se deixam manipular por grupos de interesses locais, ávidos de promoção e palco mas sem representarem serviço às comunidades. É verdade que há programas CONTACTO que precisam de melhorar a sua qualidade mas que, apesar disso, dão o retrato da comunidade emigrante que servem. Cabe perguntar porque é que as equipas locais do CONTACTO não merecem formação e reciclagem, se para vir cá fora pedir votos e dinheiro é a prática correntia dessa gente da coisa pública.

É importante este programa dar o retrato fiel da comunidade? É muito importante, se partirmos do princípio que só se ama aquilo que se conhece. Porquê a população residente em Portugal não há-de conhecer os que vivem longe para os entender melhor? Dir-me-ão, como já ouvi, que o programa PORTUGUESES NO MUNDO é quanto basta. Não basta, embora o programa seja interessante e bem feito, porque ali se contam apenas as vidas de alguns portugueses, em geral com bom grau académico, que por aventura e gosto foram viver para o estrangeiro. Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?

Porquê esta tentação colonialista, RTP? Noutros tempos é que Portugal impunha tudo às colónias: desde o vinho e o azeite, até aos livros escolares. Sei do que falo, porque sou do chamado Ultramar. Sou ”ultramada” como milhares doutros: aprendemos botânica e zoologia em livros que nos falavam de vegetais, frutos e animais que não havia na nossa terra. Tivemos de decorar todos os rios, afluentes e estações de caminho de ferro. Foi uma estupidez que deu no que deu. É isso que se quer de novo? Achará a RTP que os emigrantes são portugueses de segunda como o salazarismo achava dos brancos nascidos em África? Será por isso que não nos liga importância, considerando-nos o “Resto do Mundo” como o PSD nos baptizou há uns largos anos?

Na blogosfera circulam prosas iracundas contra os altos salários auferidos por vários membros da RTP. Eu não me impressiono com altos salários desde que os beneficiados correspondam com excelente trabalho e assinalável produtividade. A bom entendedor... E também sei que a blogosfera é o vazadouro de quanto há de bom e mau. Mas é minha convicção que a RTP tem de ser prudente, sensata e inteligente nas decisões a tomar.