sábado, 9 de abril de 2011

Primeiros cem dias de Dilma

COM A DEVIDA VÉNIA Transcreve-se da Deutsche Welle
"Ela tem se mostrado mais uma boa administradora do que uma política. E, com certeza, tem personalidade própria", afirma o sociólogo Thomas Fatheuer ® , consultor e ex-diretor do escritório da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão.
Mudanças na política externa
marcam primeiros cem dias
da gestão Dilma
Dilma tem 73% de aprovação no início de mandato

Mariana Santos *
Revisão de Alexandre Schossler


Voto contrário ao Irã e aproximação com os Estados Unidos indicam que diplomatas ganham força no governo Dilma Rousseff. Na área econômica, especialistas vêm menor preocupação com a inflação do que na era Lula.

Primeira mulher a presidir o Brasil, Dilma Rousseff completa neste domingo (10/04) cem dias de um mandato que, segundo recente pesquisa de opinião, conta com a aprovação de 73% da população brasileira. Considerada mais discreta e mais pragmática que seu antecessor e mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma vem aos poucos definindo seu próprio estilo de governar.

Apesar do pouco tempo de comando e de ter mantido vários nomes da gestão anterior, as primeiras diferenças, segundo analistas, já começam a ser sentidas, especialmente na política externa. Se com Lula o Brasil arriscou ser protagonista em alguns episódios internacionais – em boa parte deles sem sucesso, como no asilo ao então presidente hondurenho Manuel Zelaya, deposto pelos militares – a nova presidente vem mostrando ser mais sensível a críticas e favorável a uma maior atuação dos diplomatas.

Na avaliação do cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília, o ex-presidente ocupou-se demais em "acalmar os grupos mais à esquerda da legenda", o que teria resultado em confronto direto com os Estados Unidos. A defesa de Lula por uma solução diplomática na questão iraniana é o caso mais emblemático, exemplifica Pio.

Lula buscou o diálogo com o governo Ahmadinejad

"A mudança de postura [no governo Dilma] ficou clara com a votação brasileira a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, desfavorável ao Irã [no final de março]. Isso marcou uma inversão de postura", ressalta o cientista político Christian Lohbauer, integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo.

"Este governo também deve adotar, ao que tudo indica, um leve distanciamento de regimes bolivarianos na América do Sul, com os quais Lula manteve alinhamento", avalia Lohbauer. "Mas também não deve abandonar a política de protagonismo no continente", afirma.

Aproximação com os EUA

A visita ao Brasil do presidente norte-americano, Barack Obama, também foi percebida como um sinal claro de que as relações políticas e econômicas entre os dois países devem ficar mais afinadas. A diplomacia brasileira sempre tentou preservar a independência com relação aos Estados Unidos, mas na era Lula a postura do Itamaraty bateu de frente com a maior economia do mundo.

A política conduzida pelo atual ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, no entanto, visa retomar os bons laços. Em meio aos afagos do presidente norte-americano ao Brasil, Dilma pediu, durante a visita, uma parceria "entre iguais" e ressaltou a importância de se "prosseguir nas discussões para que a relação Brasil e Estados Unidos tenha resultados ainda mais positivos". O objetivo é estreitar as relações econômicas e reduzir o saldo desfavorável ao Brasil na balança comercial, que atualmente chega a 8 bilhões de dólares.

Obama e Dilma: Brasil volta a estreitar parceria com os EUA

Da mesma maneira, não surpreendeu a abstenção do Brasil – junto com China, Rússia, Índia e Alemanha – na votação do Conselho de Segurança da ONU, no mês passado, que decidiu sobre o uso da força militar na Líbia. "Na retórica, a diplomacia brasileira sempre defendeu a democracia. Mas na prática, ela tradicionalmente se abstém de qualquer tipo de medida que afete a soberania dos governos nacionais, inclusive nos casos de governos autoritários", afirma Pio.

Na busca pela continuidade

Eleita em segundo turno em outubro do ano passado com 55,7 milhões de votos – cerca de 56% dos votos válidos – a grande bandeira de campanha da economista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto era a continuidade. Já neste início de sua gestão, ela lançou a marca "Brasil, país rico é um país sem pobreza" como forma de ratificar seu compromisso com as políticas sociais e econômicas conduzidas por Lula e que renderam a ele, ao final de oito anos no poder, uma aprovação recorde de 87%.

No campo econômico, no entanto, Dilma já enfrenta dificuldades para seguir com o projeto do antecessor. Até agora não foi apontada uma solução para conter os gastos públicos e, com isso, preservar pelo menos parte do anunciado corte de R$ 50 bilhões do orçamento em programas de investimento.

Além disso, a valorização do real frente ao dólar, prejudicando a competitividade dos produtos nacionais e ajudando a desestabilizar a balança comercial, e a previsão de aumento da inflação acima das metas estipuladas tornaram-se fortes pontos de crítica da oposição.

Apesar das declarações da presidente de que "não vai negociar com a inflação", na tentativa de acalmar a população, alguns analistas afirmam não haver um grande empenho do governo em conter a alta de preços, como se via na gestão anterior.

"O Banco Central tem se mostrado não tão forte na defesa do ajuste fiscal nem suficientemente intolerante com relação à inflação", diz Pio. Na avaliação dele, o Banco Central dá sinais de que vai tolerar uma taxa acima da meta, o que seria injustificável.

Fama de durona

A fama de durona e a conhecida personalidade forte de Dilma, que militou contra a ditadura brasileira – chegando a ser presa e torturada pelo regime militar – tem sido suavizada pelas aparições em programas femininos de televisão e pela presença em exposições artísticas e apresentações culturais.

"Ela tem se mostrado mais uma boa administradora do que uma política. E, com certeza, tem personalidade própria", afirma o sociólogo Thomas Fatheuer, consultor e ex-diretor do escritório da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão.

Fatheuer: política social e econômica teve continuidade

Em sua avaliação, a presidente tem mantido as linhas gerais do governo Lula, tanto nos avanços na área social quanto nas lacunas ainda existentes em algumas questões de sustentabilidade. Por ter sido ministra de Minas e Energia de Lula, Fatheuer diz ser "um pouco decepcionante" a falta de posicionamento claro do governo brasileiro quanto ao uso da energia nuclear e à construção da usina de Angra 3.

"Esperava uma mudança na posição do novo governo. Dilma conhece muito bem a questão da energia nuclear, e quando era ministra barrou um pouco o uso, sobretudo por achar esta energia muito cara", disse.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

Alemanha. Possivelmente, uma "derrota histórica"...

Merkel perde eleições “apesar” ou “por causa” da política anti-europeia?
Uma riqueza que não explica

 Eleições do final do mês no Baden-Württenberg vão ser decisivas

Wolfgang Silva von Weizsäcker *

Analistas e comunicação social vêm assumindo que Merkel tem contrariado a adoção das medidas que a defesa do euro e da Europa (e de Portugal, claro) exigem, para assim se defender internamente - perante o parceiro da coligação no governo, face à opinião pública e devido às eleições estaduais que precisa de ganhar.

Esta ladainha, confrontada com os factos, coloca algumas interrogações:
  • O partido liberal, que em 2009 teve um êxito eleitoral sem precedentes, tem vindo a descer vertiginosamente nas eleições para os parlamentos e nas sondagens, o que significa que a postura anti-europeia de nada lhes vale;
  • Também a democracia-cristã de Merkel tem vindo a perder, quer nas urnas - Renânia do Norte-Vestefália e Hamburgo - quer nos barómetros, sendo mesmo possível que no fim do mês seja derrotado no Baden-Württenberg, o que consubstanciaria uma derrota ... histórica, como diria Sócrates;
  • Os partidos da oposição, apesar da sua postura bem mais pró-europeia, têm sido beneficiados pelo eleitorado, o que permite a interpretação de que a famigerada "opinião pública" - o bild pró-Guttemberg... - o não representa;
Aliás, a pujança da economia alemã deveria, em princípio, beneficiar o governo, mas tal não se verifica.

Provavelmente terá de se pôr a hipótese de Merkel perder as eleições pelas mesmas razões pelas quais se opõe a uma política europeia consentânea com as necessidades dos países mais pobres: lá, como cá. Merkel defende uma política que torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, sendo que os eleitores alemães não entendem porque lhes aplicam medidas de austeridade quando a riqueza está a aumentar.

* Politólogo luso-alemão

CARTA DO CANADÁ Só agora se começa...

"Nos bairros onde vivem os portugueses, que são mais de 200 mil na área da Grande Toronto (sendo 600 mil em todo o país), o Mercado da Saudade é um facto. É ali que a gente lusa se vai abastecer de tudo quanto lhe enche a mesa e a alma..."
Vai indo

Muito da diplomacia económica avalia-se nos supermercados

Fernanda Leitão

País enorme, o segundo maior depois da China, onde vivem milhões de pessoas oriundas de 160 países, o Canadá é uma terra de intenso e próspero comércio. Que, como se calcula, tem de ser criativo e de qualidade, servido por profissionais simpáticos, porque a concorrência é feroz. Fazer compras é, para o canadiano, um desporto agradável.

Vou hoje dizer-vos do chamado comércio étnico, aquele que é praticado pelas várias comunidades imigrantes, sobretudo na área da restauração e da indústria alimentar. Os imigrantes têm tendência a viverem perto uns dos outros e assim se foram criando na cidade bairros de portugueses, sul americanos, italianos, gregos, chineses, indianos, de gente do leste europeu e dos balcãs, do Médio Oriente, de filipinos e por ai fora. Bairros com as suas lojas, mercados, restaurantes, cafés, padarias, cinemas e escolas, igrejas e templos. Em todos eles moram, por gosto ou porque têm ali perto o seu trabalho, pessoas doutras origens. Assim sendo, uma pessoa pode, em cada dia que passa, provar a cozinha dos mais variados países. E, às vezes, que cozinha! Este é um dos encantos de Toronto que todos os anos, no verão, atrai à cidade milhões de turistas dos Estados Unidos que vêm assistir ao esplêndido cortejo das Caraíbas e à garantida rebalderia da Parada Gay. O que faz as delícias do município e do comércio, porque o dinheiro corre em regato caudaloso.

Nos bairros onde vivem os portugueses, que são mais de 200 mil na área da Grande Toronto (sendo 600 mil em todo o país), o Mercado da Saudade é um facto. É ali que a gente lusa se vai abastecer de tudo quanto lhe enche a mesa e a alma: desde o azeite até ao arroz carolino, passando pelas carnes fumadas e o peixe, a doçaria e a couve portuguesa para o bacalhau do Natal, e até, na entrada do verão, os manjericos. Há de tudo e com fartura. É um negócio próspero. Os vinhos, esses só os podem comprar nas lojas do estado, em determinado horário, porque anda vigora a Lei Seca do tempo do Al Capone. E há, por vezes, mistérios. Um deles foi o Cerelac nunca mais ter aparecido e nós não sabermos porquê.

Pôr produtos portugueses à venda nas grandes superfícies canadianas, isso é que tem sido mais complicado. Os italianos e os gregos vendem grandes carregamentos de azeite, queijos e castanhas, enquanto nós não o fazemos. O mesmo se passa com grandes marcas de vinhos portugueses.

Enorme foi a minha surpresa, comovida surpresa, quando há anos encontrei, num supercado canadiano, a pera rocha. Passei uma semana regalada a matar saudades dessas peras, mas depois nunca mais as vi. Até já me lembrei de pedir à minha (virtual) amiga Sandra Geada, que no Oeste trabalha na expansão desse fruto, que arranje maneira de umas toneladas virem para Toronto anualmente. Calhando, é preciso meter cunha, à portuguesa. Recentemente, num dos maiores supermercados canadianos, passaram a ser vendidos a água do Luso, a água das Pedras, os papo-secos e o pão de milho. É pouco, mas é um começo.

Não sei se este meio abandono se deve apenas ao facto de Portugal estar completamente focado na União Europeia, se as razões serão outras. Enfim, a venda de produtos portugueses por estas paragens vai indo.

Devagar, mas vai indo.