quinta-feira, 23 de junho de 2011

COM A DEVIDA VÉNIA O Velho Continente visto da Venezuela

"Europa debe hacerse reinvención de la democracia en sustitución de esta casta impermeable que parece rodearla y que la hace caer en la desesperación impotente y en la corrupción. La democracia actual es la del siglo XX sin que Europa se de cuenta de lo que si se han dado unos pocos: la necesaria intervención de las comunidades en las instituciones supranacionales."
La enfermedad de Europa

No parece existir una política anti-crisis de ninguno de los dos lados que conlleve a los objetivos comunes y a la reaparición de una verdadera solidaridad

Teódulo López Meléndez *

No han sabido las élites construir una verdadera Europa sino una especie de patchwork institucional basado sobre equilibrios que en nada contribuye a la mejoría real de la vida. Hay, pues, una crisis de confianza. Y la vertiente económica que afecta al empleo y las prestaciones sociales.

En pocas palabras, Europa se convirtió en el segundo escenario de la crisis financiera global. The Times sentenció: “El sistema bancario es insolvente, el desempleo se acelera, los ingresos por impuestos caen, los mercados están en un estado de choque, la construcción se derrumba, los déficits aumentan vertiginosamente y la confianza de los consumidores sufre una masiva contracción en todo el sistema que podría salirse de control”.

La derecha aparece impotente y achantada generando extremismos que por momentos hacen recordar los grandes males del siglo XX. La izquierda ha perdido la brújula y se mueve enloquecida y sin ideas, nutriéndose del pasado o dando muestras de su incapacidad de sustituirlo.

La izquierda no logra refundarse sobre nuevo pensamiento, se manifiesta impotente para ofrecer respuestas. La derecha, ante su confusión encerrada en el traje del nacionalismo, sólo encuentra acción en planes de seguridad y de reactivación económica. No parece existir una política anti-crisis de ninguno de los dos lados que conlleve a los objetivos comunes y a la reaparición de una verdadera solidaridad.

Pero es la crisis moral la más grave. Algunos la denominan de moral civilizadora. La historia parece ha dejado de ser competencia por el poder o competencia por la riqueza. Europa era el centro de la cultura mundial y ya no lo es. Quedó de manifiesto al final de la Guerra Fría. Una crisis de cultura necesariamente lleva a una crisis política. El siglo XXI se está convirtiendo para Europa en el siglo de la nada. El nihilismo que he puesto de relieve en otros textos conlleva a un profundo cansancio y a un relativismo moral.

Hay un malestar intelectual que hace a los europeos incapaces de definir el resultado de la presente transición. El proceso de pensamiento parece paralizado en un proceso cultural de choque psicológico. El desgaste político se acentúa como normal consecuencia. La relación del individuo con la sociedad ha alcanzado altos grados de empobrecimiento.

Europa puede estallar como proyecto político o recomponerse. Como he insistido el problema radica claramente en la política. La pretensión que asoman algunos líderes de estatismo como solución contradice claramente el deslizarse del Estado-nación lo que implica la necesidad de un avance hacia el fortalecimiento de un poder público comunitario. Europa debe hacerse reinvención de la democracia en sustitución de esta casta impermeable que parece rodearla y que la hace caer en la desesperación impotente y en la corrupción. La democracia actual es la del siglo XX sin que Europa se de cuenta de lo que si se han dado unos pocos: la necesaria intervención de las comunidades en las instituciones supranacionales.

Si bien la situación económica provoca ansiedad e interrogaciones sobre el futuro es el marco general donde debemos buscar la irritación, la desesperación juvenil y la frustración. Cada ser humano vive su propia crisis subjetiva y la desadaptación se convierte en miedo y posteriormente en reacción.

Crisis económica, crisis cultural, crisis psicológica, crisis social, hasta quizás ser crisis humana. Aparte de lo puntual como consecuencia del quiebre económico, esto es, reducción de beneficios sociales y despido de empleados públicos – lo que refleja una reducción del Estado en medio de la paradoja de renacimiento del estatismo- la otra causa son las migraciones y la xenofobia. Y la otra cara de Jano: pretendieron construir a Europa sin la participación activa de sus ciudadanos. Y lo dijeron explícitamente al eliminar del Tratado de Lisboa la referencia a democracia participativa para quedarse en un concepto desmoronado de democracia representativa. Las quejas por las derrotas de una Constitución quizás deban ser reemplazadas con una autocrítica por el empujón de rechazo dado a los ciudadanos europeos.

Esta es la Europa de la crisis con la consecuencial pérdida de confianza en una clase política burocratizada con claras manifestaciones de ineptitud.

* Escritor, político e diplomata venezuelano

terça-feira, 14 de junho de 2011

CARTA DA CANADÁ Camões, eis a questão

"O ensino e expansão da língua portuguesa, bem como a difusão da nossa vasta e rica cultura, têm sofrido tratos de polé, não apenas por legislação deficiente, mas sobretudo porque os agentes de ensino e cultura têm vindo a perder qualidade, piorando as coisas quando há diplomatas que sofrem de preparação inadequada e da mediocridade reinante."
Pátria grande e Pátria chica

Tudo quanto representar Portugal no estrangeiro deve ter estatura, dignidade e recato.
Só assim se alcança prestígio além fronteiras

Fernnanda Leitão *

Quem tem estudos e mundo sabe que vários países têm tido o cuidado de abrir centros culturais em vários continentes, com o objectivo de servirem de apoio à rede escolar da sua diáspora e de divulgarem a sua língua e cultura junto de estrangeiros. A Espanha tem o seu Instituto Cervantes, a Alemanha o seu Instituto Goethe, o Reino Unido o seu Instituto Britânico, a Itália o seu Instituto Italiano de Cultura, A França a sua Aliance Française, e por aí fora.

Em geral, esses centros culturais têm instalações próprias e condignas, contando com apreciáveis bibliotecas, espaços para teatro, concertos e palestras, galeria de arte e uma zona de convívio.

São sustentados pelo estado a que pertencem e têm a preocupação de projectar no estrangeiro uma imagem impecável do país. O que se compreende por se tratar de países que têm respeito por si próprios. Quase sempre são frequentados e vsitados por grande número de pessoas para quem os bens da cultura são importantes e, pela ordem natural das coisas, são o ponto de encontro dos que investem no saber e mesmo dos que, embora não propagandeando a chamada diplomacia económica, usam estas portas abertas para o mundo dos negócios de grande envergadura. Na verdade, esses centros tornam-se cosmoplitas e uma referência dos países que representam.

Portugal teve o seu Instituto de Alta Cultura, que levou a muitos países, com elevação, o seu património de conhecimento, mas deixou de o ter depois de 1974. Não seria perfeito e nem sequer acessível a largas camadas, mas a verdade é que não houve interesse em aproveitar a sua estrutura e adaptá-lo aos novos tempos. Optou-se pelo bota-abaixo que é sempre sinal de cegueira voluntária.

O ensino e expansão da língua portuguesa, bem como a difusão da nossa vasta e rica cultura, têm sofrido tratos de polé, não apenas por legislação deficiente, mas sobretudo porque os agentes de ensino e cultura têm vindo a perder qualidade, piorando as coisas quando há diplomatas que sofrem de preparação inadequada e da mediocridade reinante.

Lembro a propósito que um antigo secretário de estado das Comunidades num dos governos PSD, Cesário de seu nome, resolveu, numa das suas vindas ao Canadá, oferecer à sucapa uns livros e uma autorização para abrir uma escola a um clube da sua terra.

O resultado não foi brilhante: para irem aos sanitários ou simplesmente para entrarem e saírem do cubículo a que pomposamente se resolveu chamar sala de aulas, as crianças tinham de atravessar o fumo intenso dos cigarros e a barreira dos palavrões que envolviam os jogadores de cartas.

Aceitar sem uma crítica estas opções bárbaras, é negar a Portugal o estatuto de Pátria grande e obrigá-lo à prática de Pátria chica. Porque tudo quanto representar Portugal no estrangeiro deve ter estatura, dignidade e recato. Só assim se alcança prestígio além fronteiras.

É do conhecimento geral que o Instituto Camões levou um grande corte orçamental e tudo leva a crer que levará mais nos tempos a vir, de modo que dali não poderão vir dinheiros bastantes para sustentar centros de cultura. Pois se já não tem dinheiro para pagar aos seus funcionários, espalhados pelo mundo, a tempo e horas... Não sabemos se os vários centros culturais que abriram em anos passados estão instalados com dignidade ou se, por estreiteza de vistas, estão instalados “à Cesário” e a viverem de dinheiros deste ou daquele interessado em galarim. Se assim for, é melhor fechá-los. Ou até mesmo acabar com o Instituto Camões autónomo e integrá-lo num Ministério da Cultura forte e prestigiado. E deixar em boas mãos o ensino da língua portuguesa, isto é, nas mãos dos professores treinados para o efeito, com provas dadas de competência, honestidade e fidelidade à Pátria grande.

* Jornalista radicada em Toronto
 Ilustração: "Olga" de Paula Rego

domingo, 12 de junho de 2011

MEMÓRIA OPORTUNA O que é o ritmo...


"
Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reação do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais. "
O Provincianismo Português (II)

A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano

Fernando Pessoa *

Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria "provincianismo". Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa. Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.

Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental — a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.

O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.

O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher - por ideias e não por instinto - entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.


O que caracteriza a terceira camada, o escol, é como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus - os que o levaram a aceitá-la - e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.


Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais - económicas ou outras, - não se ajusta exatamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.

Quando, portanto, digo que a palavra "provincianismo" define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra "provincianismo", que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.

Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campônios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campônio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.

Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios: o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.

A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar "progresso" e dizer que é "moderno" o que vem dela. Ora o campônio, o provinciano e o citadino diferençam-se entre si pelas suas diferentes reações a esta segunda artificialidade.

O que chamei campônio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. É o homem dos "bons tempos", entendendo-se por isso os da sua mocidade, se é já idoso, ou os da mocidade dos bisavós, se é simplesmente párvuo.

No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.

Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é o progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado. O amor às grandes cidades, às novas modas, às "últimas novidades", é o característico distintivo do provinciano.

Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluído bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.

Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justa posição, entre as duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente. Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol - homens de génio e de talento -, que é campônio nessas relações.

Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reação do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.

Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa - a falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.

São estes característicos que distinguirão o provinciano do campônio e do citadino. No campônio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão. No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prática, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça, falece coordenadamente, em propósitos frustes mas idealmente sistematizados.

Percorramos, olhando sem óculos de qualquer grau ou cor, a paisagem que nos apresentam as produções e improduções do nosso escol. Nelas verificaremos, pormenor a pormenor, aqueles característicos que vimos serem distintivos do provinciano.

Comecemos por não deixar de ver o escol se compõe de duas camadas - os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer. Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário. Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre o grande escol.

Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa. Nesses, evidentemente, não se pode revelar em absoluto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento. Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só vez, que é a inevitável. Depois disso, não evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente. A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente - dos célebres, pelo menos - que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo. E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua "maneira", a análise revelará que a modificação foi regressiva: o poeta ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resolveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo. Descrevo abstratamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar, porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece.

O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção nos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a sutileza passional, a contradição no sentimento - não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.

A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pelas emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, por exemplo, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capacidade de atenção e concentração, nenhuma potência de esforço meditado, nenhuma faculdade de inibição. Escrevem ou artistam ao sabor da, chamada "inspiração", que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto.

Ora, feitos estes reparos analíticos quanto ao estado mental dos nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol. Se o escol do escol é assim, como não será o não-escol do escol? Há, porém, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter. O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro - aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.

* In "Portugal entre Passado e Futuro"

MEMÓRIA OPORTUNA O problema


"A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois..."
O Provincianismo Português (I)

O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos


Fernando Pessoa *

Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do "Orpheu", disse a Mário de Sá-Carneiro: "V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si".

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergilio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a "Divina Comédia" superior à "Eneida". O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redações, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele "desenvolvimento da largueza de consciência" em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, "A Relíquia", Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.

* In "Portugal entre Passado e Futuro"

sábado, 9 de abril de 2011

Primeiros cem dias de Dilma

COM A DEVIDA VÉNIA Transcreve-se da Deutsche Welle
"Ela tem se mostrado mais uma boa administradora do que uma política. E, com certeza, tem personalidade própria", afirma o sociólogo Thomas Fatheuer ® , consultor e ex-diretor do escritório da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão.
Mudanças na política externa
marcam primeiros cem dias
da gestão Dilma
Dilma tem 73% de aprovação no início de mandato

Mariana Santos *
Revisão de Alexandre Schossler


Voto contrário ao Irã e aproximação com os Estados Unidos indicam que diplomatas ganham força no governo Dilma Rousseff. Na área econômica, especialistas vêm menor preocupação com a inflação do que na era Lula.

Primeira mulher a presidir o Brasil, Dilma Rousseff completa neste domingo (10/04) cem dias de um mandato que, segundo recente pesquisa de opinião, conta com a aprovação de 73% da população brasileira. Considerada mais discreta e mais pragmática que seu antecessor e mentor, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma vem aos poucos definindo seu próprio estilo de governar.

Apesar do pouco tempo de comando e de ter mantido vários nomes da gestão anterior, as primeiras diferenças, segundo analistas, já começam a ser sentidas, especialmente na política externa. Se com Lula o Brasil arriscou ser protagonista em alguns episódios internacionais – em boa parte deles sem sucesso, como no asilo ao então presidente hondurenho Manuel Zelaya, deposto pelos militares – a nova presidente vem mostrando ser mais sensível a críticas e favorável a uma maior atuação dos diplomatas.

Na avaliação do cientista político Carlos Pio, da Universidade de Brasília, o ex-presidente ocupou-se demais em "acalmar os grupos mais à esquerda da legenda", o que teria resultado em confronto direto com os Estados Unidos. A defesa de Lula por uma solução diplomática na questão iraniana é o caso mais emblemático, exemplifica Pio.

Lula buscou o diálogo com o governo Ahmadinejad

"A mudança de postura [no governo Dilma] ficou clara com a votação brasileira a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, desfavorável ao Irã [no final de março]. Isso marcou uma inversão de postura", ressalta o cientista político Christian Lohbauer, integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo.

"Este governo também deve adotar, ao que tudo indica, um leve distanciamento de regimes bolivarianos na América do Sul, com os quais Lula manteve alinhamento", avalia Lohbauer. "Mas também não deve abandonar a política de protagonismo no continente", afirma.

Aproximação com os EUA

A visita ao Brasil do presidente norte-americano, Barack Obama, também foi percebida como um sinal claro de que as relações políticas e econômicas entre os dois países devem ficar mais afinadas. A diplomacia brasileira sempre tentou preservar a independência com relação aos Estados Unidos, mas na era Lula a postura do Itamaraty bateu de frente com a maior economia do mundo.

A política conduzida pelo atual ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, no entanto, visa retomar os bons laços. Em meio aos afagos do presidente norte-americano ao Brasil, Dilma pediu, durante a visita, uma parceria "entre iguais" e ressaltou a importância de se "prosseguir nas discussões para que a relação Brasil e Estados Unidos tenha resultados ainda mais positivos". O objetivo é estreitar as relações econômicas e reduzir o saldo desfavorável ao Brasil na balança comercial, que atualmente chega a 8 bilhões de dólares.

Obama e Dilma: Brasil volta a estreitar parceria com os EUA

Da mesma maneira, não surpreendeu a abstenção do Brasil – junto com China, Rússia, Índia e Alemanha – na votação do Conselho de Segurança da ONU, no mês passado, que decidiu sobre o uso da força militar na Líbia. "Na retórica, a diplomacia brasileira sempre defendeu a democracia. Mas na prática, ela tradicionalmente se abstém de qualquer tipo de medida que afete a soberania dos governos nacionais, inclusive nos casos de governos autoritários", afirma Pio.

Na busca pela continuidade

Eleita em segundo turno em outubro do ano passado com 55,7 milhões de votos – cerca de 56% dos votos válidos – a grande bandeira de campanha da economista Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto era a continuidade. Já neste início de sua gestão, ela lançou a marca "Brasil, país rico é um país sem pobreza" como forma de ratificar seu compromisso com as políticas sociais e econômicas conduzidas por Lula e que renderam a ele, ao final de oito anos no poder, uma aprovação recorde de 87%.

No campo econômico, no entanto, Dilma já enfrenta dificuldades para seguir com o projeto do antecessor. Até agora não foi apontada uma solução para conter os gastos públicos e, com isso, preservar pelo menos parte do anunciado corte de R$ 50 bilhões do orçamento em programas de investimento.

Além disso, a valorização do real frente ao dólar, prejudicando a competitividade dos produtos nacionais e ajudando a desestabilizar a balança comercial, e a previsão de aumento da inflação acima das metas estipuladas tornaram-se fortes pontos de crítica da oposição.

Apesar das declarações da presidente de que "não vai negociar com a inflação", na tentativa de acalmar a população, alguns analistas afirmam não haver um grande empenho do governo em conter a alta de preços, como se via na gestão anterior.

"O Banco Central tem se mostrado não tão forte na defesa do ajuste fiscal nem suficientemente intolerante com relação à inflação", diz Pio. Na avaliação dele, o Banco Central dá sinais de que vai tolerar uma taxa acima da meta, o que seria injustificável.

Fama de durona

A fama de durona e a conhecida personalidade forte de Dilma, que militou contra a ditadura brasileira – chegando a ser presa e torturada pelo regime militar – tem sido suavizada pelas aparições em programas femininos de televisão e pela presença em exposições artísticas e apresentações culturais.

"Ela tem se mostrado mais uma boa administradora do que uma política. E, com certeza, tem personalidade própria", afirma o sociólogo Thomas Fatheuer, consultor e ex-diretor do escritório da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão.

Fatheuer: política social e econômica teve continuidade

Em sua avaliação, a presidente tem mantido as linhas gerais do governo Lula, tanto nos avanços na área social quanto nas lacunas ainda existentes em algumas questões de sustentabilidade. Por ter sido ministra de Minas e Energia de Lula, Fatheuer diz ser "um pouco decepcionante" a falta de posicionamento claro do governo brasileiro quanto ao uso da energia nuclear e à construção da usina de Angra 3.

"Esperava uma mudança na posição do novo governo. Dilma conhece muito bem a questão da energia nuclear, e quando era ministra barrou um pouco o uso, sobretudo por achar esta energia muito cara", disse.

* 

quarta-feira, 9 de março de 2011

Alemanha. Possivelmente, uma "derrota histórica"...

Merkel perde eleições “apesar” ou “por causa” da política anti-europeia?
Uma riqueza que não explica

 Eleições do final do mês no Baden-Württenberg vão ser decisivas

Wolfgang Silva von Weizsäcker *

Analistas e comunicação social vêm assumindo que Merkel tem contrariado a adoção das medidas que a defesa do euro e da Europa (e de Portugal, claro) exigem, para assim se defender internamente - perante o parceiro da coligação no governo, face à opinião pública e devido às eleições estaduais que precisa de ganhar.

Esta ladainha, confrontada com os factos, coloca algumas interrogações:
  • O partido liberal, que em 2009 teve um êxito eleitoral sem precedentes, tem vindo a descer vertiginosamente nas eleições para os parlamentos e nas sondagens, o que significa que a postura anti-europeia de nada lhes vale;
  • Também a democracia-cristã de Merkel tem vindo a perder, quer nas urnas - Renânia do Norte-Vestefália e Hamburgo - quer nos barómetros, sendo mesmo possível que no fim do mês seja derrotado no Baden-Württenberg, o que consubstanciaria uma derrota ... histórica, como diria Sócrates;
  • Os partidos da oposição, apesar da sua postura bem mais pró-europeia, têm sido beneficiados pelo eleitorado, o que permite a interpretação de que a famigerada "opinião pública" - o bild pró-Guttemberg... - o não representa;
Aliás, a pujança da economia alemã deveria, em princípio, beneficiar o governo, mas tal não se verifica.

Provavelmente terá de se pôr a hipótese de Merkel perder as eleições pelas mesmas razões pelas quais se opõe a uma política europeia consentânea com as necessidades dos países mais pobres: lá, como cá. Merkel defende uma política que torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, sendo que os eleitores alemães não entendem porque lhes aplicam medidas de austeridade quando a riqueza está a aumentar.

* Politólogo luso-alemão

CARTA DO CANADÁ Só agora se começa...

"Nos bairros onde vivem os portugueses, que são mais de 200 mil na área da Grande Toronto (sendo 600 mil em todo o país), o Mercado da Saudade é um facto. É ali que a gente lusa se vai abastecer de tudo quanto lhe enche a mesa e a alma..."
Vai indo

Muito da diplomacia económica avalia-se nos supermercados

Fernanda Leitão

País enorme, o segundo maior depois da China, onde vivem milhões de pessoas oriundas de 160 países, o Canadá é uma terra de intenso e próspero comércio. Que, como se calcula, tem de ser criativo e de qualidade, servido por profissionais simpáticos, porque a concorrência é feroz. Fazer compras é, para o canadiano, um desporto agradável.

Vou hoje dizer-vos do chamado comércio étnico, aquele que é praticado pelas várias comunidades imigrantes, sobretudo na área da restauração e da indústria alimentar. Os imigrantes têm tendência a viverem perto uns dos outros e assim se foram criando na cidade bairros de portugueses, sul americanos, italianos, gregos, chineses, indianos, de gente do leste europeu e dos balcãs, do Médio Oriente, de filipinos e por ai fora. Bairros com as suas lojas, mercados, restaurantes, cafés, padarias, cinemas e escolas, igrejas e templos. Em todos eles moram, por gosto ou porque têm ali perto o seu trabalho, pessoas doutras origens. Assim sendo, uma pessoa pode, em cada dia que passa, provar a cozinha dos mais variados países. E, às vezes, que cozinha! Este é um dos encantos de Toronto que todos os anos, no verão, atrai à cidade milhões de turistas dos Estados Unidos que vêm assistir ao esplêndido cortejo das Caraíbas e à garantida rebalderia da Parada Gay. O que faz as delícias do município e do comércio, porque o dinheiro corre em regato caudaloso.

Nos bairros onde vivem os portugueses, que são mais de 200 mil na área da Grande Toronto (sendo 600 mil em todo o país), o Mercado da Saudade é um facto. É ali que a gente lusa se vai abastecer de tudo quanto lhe enche a mesa e a alma: desde o azeite até ao arroz carolino, passando pelas carnes fumadas e o peixe, a doçaria e a couve portuguesa para o bacalhau do Natal, e até, na entrada do verão, os manjericos. Há de tudo e com fartura. É um negócio próspero. Os vinhos, esses só os podem comprar nas lojas do estado, em determinado horário, porque anda vigora a Lei Seca do tempo do Al Capone. E há, por vezes, mistérios. Um deles foi o Cerelac nunca mais ter aparecido e nós não sabermos porquê.

Pôr produtos portugueses à venda nas grandes superfícies canadianas, isso é que tem sido mais complicado. Os italianos e os gregos vendem grandes carregamentos de azeite, queijos e castanhas, enquanto nós não o fazemos. O mesmo se passa com grandes marcas de vinhos portugueses.

Enorme foi a minha surpresa, comovida surpresa, quando há anos encontrei, num supercado canadiano, a pera rocha. Passei uma semana regalada a matar saudades dessas peras, mas depois nunca mais as vi. Até já me lembrei de pedir à minha (virtual) amiga Sandra Geada, que no Oeste trabalha na expansão desse fruto, que arranje maneira de umas toneladas virem para Toronto anualmente. Calhando, é preciso meter cunha, à portuguesa. Recentemente, num dos maiores supermercados canadianos, passaram a ser vendidos a água do Luso, a água das Pedras, os papo-secos e o pão de milho. É pouco, mas é um começo.

Não sei se este meio abandono se deve apenas ao facto de Portugal estar completamente focado na União Europeia, se as razões serão outras. Enfim, a venda de produtos portugueses por estas paragens vai indo.

Devagar, mas vai indo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

COM A DEVIDA VÉNIA Crise e oportunidade

"Esta Europa de discurso duplo e duplicidade de actuação – para salvaguarda dos seus próprios interesses económicos e de segurança – conseguirá restaurar o seu prestígio e a confiança dos países vizinhos do Mediterrâneo do Sul, salvo se apoiar, de forma inequívoca, a transição democrática desses países, se perder o medo ao islamismo, se reforçar a cooperação económica, e se incrementar os seus contactos com a sociedade civil destes países e com os respectivos actores políticos emergentes"

O Mediterrâneo, de novo

no centro do mundo
A revolução de “jasmim” dos jovens árabe-muçulmanos
parece demonstrar que a democracia é, de facto, um valor universal, compatível com a crença no Islão


Maria Regina Flor e Almeida *

As revoltas no mundo árabe, a que temos vindo a assistir, estão neste momento a reclamar a centralidade do Mediterrâneo, contra o movimento de deslocação do centro de gravidade da política mundial para a Ásia, conforme vinha sendo observado e proclamado desde o início do presente século XXI.


Se é certo que esta deslocação do centro de gravidade da política mundial para a Ásia em muito se deve ao rápido e pujante crescimento económico da China e da Índia - por isso mesmo consideradas potências emergentes -, o que ratifica a centralidade do factor económico na política internacional e na dinâmica da comunidade mundial, também é certo que a atenção que, de súbito, requer a região do Mediterrâneo, graças às revoluções de “jasmim” que ali se desencadearam, sobreleva de um factor eminentemente político e social, que põe em risco a segurança e a estabilidade, não apenas da região em si, mas, também, das regiões vizinhas, num arco de círculo que se estende desde o Atlântico ao Pacífico.

E está ainda por ver até que ponto o efeito de contágio destas revoluções da sociedade civil e dos jovens dos países árabes já afectados – Tunísia, Egipto, Líbia, Argélia, Marrocos, Yémen, Jordânia, Síria, Bahrein – não servirá de rastilho para outros países (em que já pontua o Irão), igualmente detentores de regimes autocráticos e avassalados pela desesperança dos jovens, e para outros países mais afastados, mas, mesmo assim, interligados neste mundo global em que vivemos.

A pobreza, a corrupção da classe política, o imobilismo político e a falta de democracia, lançaram para a rua milhares de jovens que vêm protagonizando a mais vasta manifestação da sociedade civil da geografia planetária, mas que tem afectado, sobretudo, as regiões do Magrebe, do Macherreque e do Médio Oriente, com risco de se propagar a outras regiões.

Mas um outro dado que ressalta deste movimento é o próprio imobilismo da Europa, que, mergulhada na sua própria crise institucional, política e financeira, e temerosa pela ameaça da Jihad islâmica, não consegue reagir, atempadamente e de forma coerente com os valores que defende, perante a súbita mudança dos regimes árabes vizinhos e o clamor da juventude dos países afectados por fortes assimetrias e por governos que não respondem às suas exigências democráticas e económicas.

Sendo embora evidente que nenhum país observador conseguiu dar conta do que se gestava, aparentemente de forma silenciosa, no seio dessa população juvenil, é bem verdade que, mesmo depois de a revolta eclodir, a União Europeia não conseguiu acertar o passo entre os seus membros, nem adoptar uma atitude pró-activa a favor das legítimas expectativas das sociedades afectadas. Reagiu tarde, de forma confusa e receosa, e, mesmo assim, parece tê-lo feito sob o chapéu da iniciativa norte-americana que, quebrado o espanto inicial, conseguiu responder com alguma contundência e oportunidade, ao exigir o fim da violência dos regimes contestados, a urgente retirada desses governos e uma rápida transição política para a democracia.

A duras penas, esta Europa de discurso duplo e duplicidade de actuação – para salvaguarda dos seus próprios interesses económicos e de segurança – conseguirá restaurar o seu prestígio e a confiança dos países vizinhos do Mediterrâneo do Sul, salvo se apoiar, de forma inequívoca, a transição democrática desses países, se perder o medo ao islamismo, se reforçar a cooperação económica, e se incrementar os seus contactos com a sociedade civil destes países e com os respectivos actores políticos emergentes.

O tempo é de incerteza, pois não se sabe o caminho que estas revoluções de “jasmim” irão adoptar no futuro; e é de incerteza, também, porque se desconhece, ainda, qual a amplitude destes movimentos de protesto e revolta, não sendo de estranhar a sua eclosão noutros pontos do globo, tornando mais frágeis os laços de muitos países terceiros com a Europa e mais instável o ambiente de paz e segurança mundial. São muitos os países do Terceiro Mundo, cujos regimes autocráticos se forjaram à sombra das potências coloniais europeias e persistiram graças a essa duplicidade europeia, e também norte-americana, que poderão ver-se abalados por esta nova onda de protestos que ameaça irromper onde quer que exista uma grande massa de população juvenil descriminada, tanto política, como economicamente. E estou a lembrar-me, por exemplo, de muitos países africanos e de alguns países asiáticos, o que dará novos contornos fronteiriços às zonas de turbulência, por um lado, e às zonas em vias de democratização, por outro, mesmo em regiões onde a fronteira com o Ocidente era traçada pela religião.

Algumas certezas parecem-nos agora inabaláveis. A primeira, prende-se com o paradigma da religião islâmica contrária à democracia. A revolução de “jasmim” dos jovens árabe-muçulmanos parece demonstrar que a democracia é, de facto, um valor universal, compatível com a crença no Islão, ditada pelo Corão.

A segunda, diz respeito ao papel da política no seio das sociedades, mesmo as mais deterioradas em termos de liberdades e de direitos humanos. Et pour cause!...


Outra certeza prende-se com a posição da Europa no mundo e com o progressivo esbatimento de um papel político central, quando também está em risco de perder o seu lugar de “gigante económico” mundial, por falta de reacção, de unidade, de renovação e de inovação. Embora situada numa região charneira do mundo, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, com ramificações para outras zonas estratégicas do globo, a Europa terá cedido o seu lugar, vendo afastar-se, mais ainda, a hipótese de recuperar o seu antigo prestígio internacional e de alcançar o ambicionado papel de “global player”.

No entanto, esta repentina crise às portas da Europa, que voltou a fazer convergir todas as atenções no Mediterrâneo, pode constituir uma janela de oportunidade se, rapidamente, as principais potências ocidentais – a UE e os EUA, principalmente – se coligarem, não para destituírem, pela guerra, um ditador alegadamente detentor de armas de destruição maciça, como no Iraque, ou para, através da guerra, capturarem um terrorista islâmico, como Bin Laden, mas para ajudar as sociedades mais vulneráveis e a sua juventude que pretendem ver-se livres do jugo de regimes ditatoriais e corruptos, e de estereótipos das democracias ocidentais.

Esta pode ser, também, uma janela de oportunidade para que a Europa e os EUA se concertem para contribuir, de facto, na criação de zonas de estabilidade e de desenvolvimento, nomeadamente, nas regiões da sua vizinhança próxima, como sejam o Atlântico e o Mediterrâneo.


Lisboa, 02.03.2011

Diplomata, doutora em relações internacionais

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Censura. Brasil a seguir à Líbia...

COM A DEVIDA VÉNIA  Estado de S.Paulo, 16/02/2011

Brasil bate recorde
de censura ao Google 



Gabriel Manzano *

Só na primeira metade do ano passado, o Google foi obrigado por autoridades brasileiras a tirar do ar 398 textos jornalísticos. Foi recorde mundial do período. O dobro do segundo da lista, a Líbia. O dado está no relatório do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), divulgado ontem em São Paulo.

Além disso, nos dias finais da corrida eleitoral brasileira os juízes do País emitiram 21 ordens de censura, revela uma pesquisa do Centro Knight para o Jornalismo, do Texas (EUA). Muitas agências de notícias foram também multadas ou tiveram de remover conteúdos. “Esse quadro mostra que a censura e a autocensura, que vem junto, estão atingindo níveis muito sérios no Brasil”, resumiu Carlos Lauria, coordenador do CPJ, que veio ao Brasil apresentar o levantamento Ataques à Imprensa em 2010. Ele distribuiu ainda outro texto menor sobre a situação na América Latina, em encontro promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). “Nossos levantamentos apontam 44 jornalistas mortos em serviço e 145 presos, em todo o mundo, no ano passado”, resumiu.

A censura ao Estado, hoje em seu 565.º dia, é o destaque de abertura do levantamento sobre o continente. “É espantoso que, num país como o Brasil, um dos maiores jornais seja proibido de noticiar um grande escândalo, que envolve figuras políticas conhecidas. Não consigo imaginar o The Washington Post sendo proibido de publicar algo sobre um ex-presidente americano”, disse ele. Lauria vai a Brasília amanhã, onde se reunirá com autoridades do Planalto, da Secretaria das Comunicações e dos Direitos Humanos. A agenda inclui uma visita ao Supremo Tribunal Federal.

Artifício. Os levantamentos do comitê, nos cinco continentes, apontam um novo artifício dos governos para impedir o trabalho da imprensa: eles enquadram os jornalistas em crimes de outra ordem, como subversão ou atos contra o interesse nacional, nos quais as leis sobre imprensa não se aplicam. Isso tem ocorrido no Oriente Médio, no Casaquistão, na África.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

CARTA DO CANADÁ Se houver quem responda

"Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?"
Porquê, RTP, porquê?

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito

Fernanda Leitão

A situação é esta: nós, os emigrants, gostamos da RTP na sua vertente internacional, embora achemos um despautério o exagerado espaço que dá à pequena política, isto é, às opiniões, em geral disparatadas, de uns senhoritos partidários que mais não querem do que o poder e com provas dadas de que não valem nada. Ou a verdadeira entronização de uns sujeitos que se dizem humoristas e não passam de choldra. Mas, tirando isto, queremos bem aos programas que nos dizem como de facto está a nossa terra, os que nos trazem novas culturais, os que nos ensinam e divertem.

Mas começamos a ficar de pé atrás. Daí à completa desconfiança, vai um passo.

Uma das coisas que mais nos maça é a falta de respeito com que a RTP falha horários e programas que exigem continuidade. De repente, sem explicações, desapareceram as séries LIBERDADE 21, PAI À FORÇA e CONTA-ME COMO FOI. De repente também, sem dizerem água vai, passam algumas destas séries a destempo, sem terem a delicadeza de exibir ao menos um resumo do passado para que possamos encontrar o fio da meada. O mesmo se passa com os horários que deviam estar na internet e muitas vezes estão ausentes dias seguidos, o que leva logo os emigrantes a dizer que “lá em baixo lidam mal com os computadores”, convicção que lhes vem das grandes secas passadas em repartições públicas, quando se deslocam a Portugal.

E agora, confirma-se que a RTP acaba com o programa CONTACTO, feito em todas as comunidades espalhadas pelo mundo, já em Abril próximo. É uma muito má decisão acabar com aquilo que é feito pelas comunidades, provavelmente para impingir uma imitação feita por equipas vindas de Portugal que não sabem de todo como é a imigração e, quase sempre, se deixam manipular por grupos de interesses locais, ávidos de promoção e palco mas sem representarem serviço às comunidades. É verdade que há programas CONTACTO que precisam de melhorar a sua qualidade mas que, apesar disso, dão o retrato da comunidade emigrante que servem. Cabe perguntar porque é que as equipas locais do CONTACTO não merecem formação e reciclagem, se para vir cá fora pedir votos e dinheiro é a prática correntia dessa gente da coisa pública.

É importante este programa dar o retrato fiel da comunidade? É muito importante, se partirmos do princípio que só se ama aquilo que se conhece. Porquê a população residente em Portugal não há-de conhecer os que vivem longe para os entender melhor? Dir-me-ão, como já ouvi, que o programa PORTUGUESES NO MUNDO é quanto basta. Não basta, embora o programa seja interessante e bem feito, porque ali se contam apenas as vidas de alguns portugueses, em geral com bom grau académico, que por aventura e gosto foram viver para o estrangeiro. Os emigrantes são cerca de cinco muilhões em todo o mundo, a maior parte saiu do país por graves condicionalismos sociais. Têm direito a usar a sua voz publicamente. Ou Portugal não é uma democracia?

Porquê esta tentação colonialista, RTP? Noutros tempos é que Portugal impunha tudo às colónias: desde o vinho e o azeite, até aos livros escolares. Sei do que falo, porque sou do chamado Ultramar. Sou ”ultramada” como milhares doutros: aprendemos botânica e zoologia em livros que nos falavam de vegetais, frutos e animais que não havia na nossa terra. Tivemos de decorar todos os rios, afluentes e estações de caminho de ferro. Foi uma estupidez que deu no que deu. É isso que se quer de novo? Achará a RTP que os emigrantes são portugueses de segunda como o salazarismo achava dos brancos nascidos em África? Será por isso que não nos liga importância, considerando-nos o “Resto do Mundo” como o PSD nos baptizou há uns largos anos?

Na blogosfera circulam prosas iracundas contra os altos salários auferidos por vários membros da RTP. Eu não me impressiono com altos salários desde que os beneficiados correspondam com excelente trabalho e assinalável produtividade. A bom entendedor... E também sei que a blogosfera é o vazadouro de quanto há de bom e mau. Mas é minha convicção que a RTP tem de ser prudente, sensata e inteligente nas decisões a tomar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ALFREDO BARROSO Agora, armazenar água




"... a Direita identifica sempre sem qualquer dificuldade os seus interesses comuns, pondo de lado as suas divergências, a Esquerda identifica sempre com toda a facilidade as suas divergências, ignorando os seus interesses comuns."
Esquerda desfeita,

direita satisfeita!

Alfredo Barroso *

Há, hoje, uma diferença fundamental, cada vez mais evidente, entre a Direita e a Esquerda: enquanto a Direita identifica sempre sem qualquer dificuldade os seus interesses comuns, pondo de lado as suas divergências, a Esquerda identifica sempre com toda a facilidade as suas divergências, ignorando os seus interesses comuns.

Desde Blair e o «New Labour», e de Schröder e o «Novo Centro», a esquerda social-democrata europeia aderiu aos princípios e métodos do neoliberalismo, em nome da globalização – e deixou de pensar em verdadeiras alternativas políticas, económicas e sociais consistentes e credíveis. Em suma: deitou pela borda fora os princípios básicos da social-democracia genuína, esbatendo quase por completo as diferenças que a separavam da direita.

Em Portugal, a degradação, decadência e deliquescência dessa esquerda social-democrata, representada pelo PS, começou com Guterres e consolidou-se com Sócrates. Claro que a culpa não é só do PS. Mas o socialismo democrático já não vai além da mera retórica.

E agora foi mesmo um ar que lhe deu! Esquerda desfeita, Direita satisfeita!

É cada vez mais evidente que a Esquerda, no seu conjunto, vai ter de armazenar muita água para a longa travessia do deserto que tem pela frente… Como os camelos!
_______________

* Comentador. Antigo chefe da Casa Civil do PR Mário Soares.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A cor da Alemanha

As sete eleições estaduais que terão lugar na Alemanha em 2011 condicionarão a atitude anti-europeia da chanceler?
Os sete imbróglios de Merkel

 Cinco eleições em maio e duas em setembro

Wolfgang Silva von Weizsäcker *

Estamos recordados das hesitações alemãs sobre a defesa da Europa (crise grega) no ano passado, que se apontava serem provocadas pelo receio de perder as eleições na Renânia do Norte Vestefália - RNV, o estado mais populoso da República Federal. E assim veio a acontecer: a RNV é entretanto governada por uma coligação entre os social-democratas e os verdes, sem maioria absoluta mas tolerada pela esquerda. Entretanto, há até a hipótese de ali virem a ser convocadas novas eleições, devido a uma disputa em torno de um orçamento retificativo, mas nem por isso melhoraram as perspectivas da coligação chefiada por Ângela Merkel, aliando os democratas-cristãos aos liberais.

Aliás, as perspectivas são péssimas um pouco por toda a Alemanha, traduzindo-se essencialmente numa quebra vertiginosa dos liberais, partido do contestado vice-chanceler e Ministro dos Negócios Estrangeiros, que baixaram de 14,6% nas eleições de 2009 para uma intenção de voto de 4%, percentagem que lhes não dá acesso ao Parlamento Federal, e numa espantosa subida nas intenções de voto nos verdes para os 20%.

Até Maio haverá cinco eleições, começando dia 20 de Fevereiro em Hamburgo, com a anunciada derrota dos partidos da coligação de Merkel; em 20/27 de Março votar-se-á na Sachsen-Anhalt, onde os social-democratas se deverão reforçar, na Renânia Palatinado, onde devem continuar a governar, e no importante e rico Baden-Würtemberg, onde os contrutores de mercedes e porches estão a pensar em fazer história, ao darem o maior número de votos aos verdes (!) que poderiam coligar-se com os social-democratas, o que só por si tornaria irrelevantes as eleições em Maio na pequena cidade-estado de Bremen, já governada pela dita coligação. Em Setembro, finalmente, haverá mais duas eleições, em Meckenburg-Vorpommern e Berlim, sendo o principal motivo de interesse a possibilidade de, também aqui, os verdes poderem passar a partido mais votado.

Mesmo que Merkel ainda esteja a persistir na atitude política do ano passado, perdido o Baden-Würtemberg de nada lhe adiantaria manter o oportunismo europeu que tem prosseguido. Até pode acontecer que os eleitores alemães comecem a entender que não estão a pagar a crise do euro, porra nenhuma, mas, pelo contrário, a crise não tem impedido o aumento do PIB e das exportações, a diminuição do desemprego, a melhoria dos salários e do consumo - finalmente - e toda a gente lhes vai ficar a dever o dinheiro do apoio ao euro e à Europa.

Que mais quererá uma sociedade tão crescida que se pode permitir um governo fracote e ainda ganhar com o apoio aos outros?

* Politólogo luso-alemão

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tunísia, há que aprender

COM A DEVIDA VÉNIA Transcrito de Democracia del siglo XXI
"Ben Ali estaba asimismo debilitado por las presiones de Estados Unidos, que se ha implicado a fondo en su derrota, en primer lugar, porque ha visto una posible manera de hacer realidad su proyecto de democratización “suave” (no como Bush en Irak) en el mundo árabe; y en segundo, porque era una forma de debilitar a Francia en el Magreb. En cuanto a Francia, ha hecho gala de una ceguera que supera cualquier medida al apoyar a Ben Ali y ofrecerse, días antes de su desaparición, ¡para “formar” a su policía! Un fracaso diplomático que pagará muy caro.

La lección de Túnez

Sami Nair *

Túnez acaba de vivir una doble revuelta que aún no constituye una revolución. Una revuelta popular y una revuelta de palacio en el entorno del presidente Ben Ali. La revuelta en la calle comenzó hace cuatro semanas cuando un joven de 23 años, Mohammed Bouazizi, se inmoló en Sidi Bouzid para expresar su desesperación ante las injusticias; ello provocó una ola de indignación que se transformó en una marea de protestas. Sobre todo desde que comenzó el siglo, la situación social es desastrosa para los más pobres.

El poder de Ben Ali se apoyaba en tres fuerzas centrales. Una, las clases medias, relativamente integradas, han visto cómo su situación se degradaba. En los últimos años, el poder cambió de base, se fundió con los círculos de especuladores y se hundió en una corrupción familiar de tipo mafioso. La mujer del presidente y su familia, los Trabelsi, se adueñaron de todo lo que valía algo y no dudaron en “extorsionar” a otros para apoderarse de sus negocios, con la aprobación del presidente.

El poder también se apoyaba en un aparato de dominación formado por los dirigentes y militantes del RCD, el partido oficialista, que controlaba todos los engranajes y la corrupción en el país. Una especie de milicia con la impunidad garantizada, que vigilaba a la población e imponía un clima de delación que a menudo derivaba en cárcel y torturas.

Por último, la policía y la guardia nacional (la gendarmería), que Ben Ali, ex ministro del Interior, tenía en sus manos. En los últimos 23 años el Ejército se fue debilitando porque Ben Ali siempre le tuvo miedo. Túnez, vista la experiencia de los golpes de Estado militares en otros países africanos, quiso tener un ejército que no fuera muy poderoso y, en cambio, dio prioridad a la policía y la guardia nacional, que se convirtieron en el principal instrumento de represión. De hecho, la policía, junto con una parte de las milicias del RCD, y con su utilización de grupos de saqueadores, está en el origen de la destrucción y los asesinatos de estos últimos días.

Lo que ha hecho que hubiera un vuelco es un fenómeno mental colectivo extraordinariamente poderoso: la desaparición del miedo. ¿Por qué? Por muchas razones, pero sobre todo porque el poder no supo cómo reaccionar ante la inmolación del joven Bouazizi. Con su visita a la familia del mártir, el presidente se puso personalmente en primera línea; al ofrecer dinero a los padres por la muerte del joven, añadió la humillación. Si quería mostrar que era capaz de sentir compasión, lo que demostró Ben Ali fue que tenía miedo. A partir de ese momento, el miedo cambió de bando. Ben Ali destituyó a ministros, hizo mil promesas, pero nada podía detener ya la rebelión de la calle, que había comprendido que el Estado no era tan fuerte como parecía. Cada víctima de la represión hizo crecer las protestas. En 23 días, los tunecinos acabaron con 23 años de dictadura.

Dentro del régimen, el Ejército se ha vengado de la policía. Esta se ha mostrado incapaz de ejercer la represión por dos motivos fundamentales: por una parte, el sindicato Unión General Tunecina del Trabajo (UGTT), sobre todo los mandos intermedios regionales y federales, se negaron a obedecer al poder, se pusieron del lado del pueblo y contribuyeron a agitar las demandas sociales; por otra, un sector importante de los oficiales generales, respaldados por los soldados en activo que en repetidas ocasiones se negaron a abrir fuego sobre los manifestantes, dejó muy claro a Ben Ali que ya no estaban con él. De esa forma, no le dejaron más que una salida: huir.

Ben Ali estaba asimismo debilitado por las presiones de Estados Unidos, que se ha implicado a fondo en su derrota, en primer lugar, porque ha visto una posible manera de hacer realidad su proyecto de democratización “suave” (no como Bush en Irak) en el mundo árabe; y en segundo, porque era una forma de debilitar a Francia en el Magreb. En cuanto a Francia, ha hecho gala de una ceguera que supera cualquier medida al apoyar a Ben Ali y ofrecerse, días antes de su desaparición, ¡para “formar” a su policía! Un fracaso diplomático que pagará muy caro.

La oposición, ya sea oficial o ilegal, no ha desempeñado ningún papel. Como tampoco se ha visto, en las manifestaciones, una sola bandera verde, símbolo del islam. Pero eso no puede durar. Con Ben Ali fuera, le ha sustituido el primer ministro, Mohamed Ghanuchi. Y ahí empiezan las dificultades. Los partidarios de Ben Ali temen la venganza popular, así que han emprendido una política de tierra quemada, sobre todo en los barrios burgueses y acomodados, con el fin de aterrorizar a sus habitantes y romper la alianza entre esas capas y el pueblo. En los últimos días ha habido decenas de muertos en Túnez. Se está instalando un estado de caos que favorece al poder interino actual: el nuevo presidente ha prometido convocar elecciones en el plazo de seis meses, un periodo muy largo que permite presagiar manipulaciones peligrosas.

Las perspectivas para el futuro más próximo son meras hipótesis mientras no se reorganice la policía y mientras el Ejército no se pronuncie con claridad en favor del orden republicano. Además, será necesario meter en cintura a las milicias del RCD, formadas por elementos desclasados para los que la pertenencia al partido era el principal método de ascenso social.

La primera hipótesis es que el nuevo poder consiga restablecer enseguida el orden y organizar una Conferencia Nacional en la que estén representados todos los miembros de la oposición, con un programa de transición política que deberá desembocar en la instauración de una auténtica democracia republicana (nueva Constitución, elecciones legislativas, municipales, etcétera). A esta solución se oponen los restos del aparato dictatorial de Ben Ali (policía, burocracia, etcétera), los restos del RCD y el nuevo poder, que tendrá que rendir cuentas de su pertenencia al sistema derrocado.

La segunda hipótesis es un acuerdo entre todas las fuerzas de la oposición oficial, la integración de los partidos de oposición ilegales y la creación de un consenso sobre un programa mínimo para instaurar un sistema de transición que correría el peligro de tener una duración indefinida. En resumen, una especie de cambio dentro de la continuidad, porque se mantendría el régimen actual. Los factores en contra de esta hipótesis son la impaciencia y la cólera del pueblo, que quiere acabar con estos 23 años de dictadura.

Por último, una tercera hipótesis, que también es posible: Ben Ali preparaba, en los últimos años, una sucesión “neoislamista” encarnada en un miembro de su familia, hombre de negocios y creyente al parecer devoto; el Estado, sin tocar las bases laicas del “bourguibismo”, iba islamizándose poco a poco; los programas religiosos invadían las pantallas y daba la impresión de que se estaba cociendo una confesionalización del poder, con el único objetivo de pervertir unas reivindicaciones sociales dotadas cada vez de más dureza y presión. El poder actual puede muy bien retomar esta estrategia e intentar establecer un régimen basado en un islamismo conservador cuya utilidad es evidente: así controlaría las reivindicaciones populares y se apoyaría en los grupos sociales más sensibles a esta retórica; llevaría de nuevo a las clases medias a su terreno, al presentarse como garante del mantenimiento de la seguridad, y tranquilizaría a los vecinos, desde Marruecos hasta Egipto, pasando por Argelia y Libia, que ya sufren este tipo de situación y ven con muy malos ojos el ejemplo tunecino.

No se puede excluir tampoco una mezcla de las tres opciones, que solo serviría para aplazar las decisiones institucionales que debe tomar Túnez. Lo que es innegable es que los tunecinos afrontan hoy una transición hacia una revolución democrática y republicana, y eso es lo más difícil. Porque el movimiento callejero no posee ni dirección reconocida ni programa.

Se abre una nueva etapa. Los tunecinos han demostrado, con una fuerza y una dignidad enormes, que siempre se puede vencer a la opresión. También han conseguido, quizá, que el mundo árabe entre a formar parte de la misma historia que los pueblos de Latinoamérica y los países de Europa del Este en el siglo pasado, cuando conquistaron su derecho a la libertad de expresión a costa de grandes sacrificios humanos. Y esa lección es inmensa.

*Sami Naïr es profesor invitado de la Universidad Pablo de Olavide, Sevilla. Traducción de María Luisa Rodríguez Tapia

sábado, 15 de janeiro de 2011

COM A DEVIDA VÉNIA. Alfredo Barroso: os poderes do Presidente

Os poderes do PR definem-se na prática política. Mas, a amplitude desses poderes depende do tipo de maioria parlamentar que apoia o Governo. Esses poderes serão mais amplos se a maioria parlamentar for relativa; menos amplos se a maioria parlamentar for absoluta mas pluripartidária; e mais restritos se a maioria parlamentar for absoluta e monopartidária. (...) O importante é que o Presidente da República adopte sempre, em todas as circunstâncias, «uma posição suprapartidária e equidistante em relação aos partidos políticos, no exercício das suas funções»

De experiência própria

Comentários
ao livro de André Freire e António Costa Pinto
 sobre "O Poder Presidencial em Portugal"

Alfredo Barroso *

1

Começo por esclarecer que não tenho qualificações académicas que me habilitem a debater os temas abordados neste livro do André Freire e do António Costa Pinto, sobre «O Poder Presidencial em Portugal», do ponto de vista da teoria constitucional ou da ciência política.

Li o livro pela primeira vez em Dezembro passado. E li-o novamente quando a Fundação Res Publica teve a amabilidade de me convidar, há quinze dias, para vir aqui à Livraria Almedina tecer alguns comentários sobre ele, na presença dos autores, aos quais peço, desde já, a maior benevolência «académica».

Já tinha lido, aliás, há cinco anos, o livro dos mesmos autores sobre «O Poder dos Presidentes», primeira versão deste livro agora publicado, que é mais desenvolvido e actualizado, designadamente com uma análise dos cinco anos de mandato do actual PR, Aníbal Cavaco Silva.

Considero o livro excelente sob vários pontos de vista. A resenha histórica é bastante boa. A enumeração dos antecedentes próximos e longínquos que determinaram a adopção do sistema semipresidencial pela Assembleia Constituinte é muito esclarecedora. A análise da evolução do sistema desde 1976 é excelente. A exposição dos diversos pontos de vista teóricos sobre a natureza e a classificação do sistema semipresidencial é utilíssima – porque o semipresidencialismo é, de facto, um mundo de subtilezas e nuances, que faz as delícias dos especialistas.

2

Neste convite que me dirigiram pesou, evidentemente, a minha experiência de dez anos como chefe da Casa Civil do PR Mário Soares – que foi, aliás, o primeiro Presidente da República civil eleito por sufrágio directo em Portugal. Quer Sidónio Pais (1917) quer Ramalho Eanes (1976) eram militares, e os plebiscitos organizados durante o Estado Novo não contam, porque foram meras farsas eleitorais.

Também terá pesado o facto de eu ter escrito, em 1987, com a colaboração de José Vicente de Bragança, um pequeno ensaio sobre «O Presidente da Republica: função e poderes» - publicado pela Revista de Estúdios Políticos de Madrid e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa - e que alguns autores, como os que estão aqui ao meu lado, fazem o favor de continuar a citar nas suas bibliografias.

3

Devo ainda referir a minha experiência de três anos - entre 1983 e 1985 - como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do IX Governo Constitucional (o famoso governo do «bloco central»), em que fui, por inerência do cargo, o interlocutor do chefe da Casa Civil do PR Ramalho Eanes, que nessa altura era o dr. Caldeira Guimarães.

(Curiosamente, dizia-se que o dr. Caldeira Guimarães e eu éramos fisionomicamente muito parecidos, pelo menos nas fotos dos jornais, o que se prestou a alguns equívocos. Vários amigos confundiam-me com ele, e perguntavam o que é que eu estava ali a fazer, nas fotos dos jornais, ao lado ou atrás do então Presidente Ramalho Eanes - e logo eu que era um feroz crítico do general...).

Isto, para dizer que tive, efectivamente, a experiência dos dois lados da relação institucional, quase quotidiana, que naturalmente se estabelece entre a Presidência da República e o Governo.

Vários procedimentos foram sendo alterados desde então. Um deles, muito relevante: a Presidência da República passou a dispor de autonomia administrativa e financeira, a partir do primeiro mandato do Presidente Jorge Sampaio (beneficiando das maiorias coincidentes que então existiam, em Belém e S. Bento). O que não foi de somenos importância para garantir uma efectiva separação de poderes entre os dois órgãos de soberania.

4

Dito isto – e para servir de mote aos comentários que vou fazer a seguir – escolhi uma frase que foi proferida por um político francês muito conhecido, Jacques Chaban-Delmas, depois de ter sido Primeiro-Ministro, e que passo a citar:

«Tout ce qui va mal est la faute du Premier ministre; tout ce qui va bien découle de l’action du President».

Para aqueles que não simpatizam com o Francês e preferem o Inglês, traduzo para Português:

«Tudo o que vai mal é culpa do Primeiro-Ministro; tudo o que vai bem decorre da acção do Presidente».

(Convém dizer que Chaban-Delmas era um político gaullista. Foi presidente do Conselho Nacional da Resistência durante a II Guerra Mundial. Foi «Maire» de Bordéus durante quase meio século. Foi Presidente da Assembleia Nacional por três vezes. Foi Primeiro-Ministro entre 1969 e 1972, durante o mandato do Presidente Georges Pompidou. E foi ainda, em 1974, candidato a Presidente da República, mal sucedido e alvo de uma campanha ignóbil).

Com aquela frase, Chaban-Delmas estava a chamar a atenção para dois aspectos do bicefalismo que caracteriza o sistema de governo francês sob a V República:

– por um lado, o «dualismo PR-PM» (partilham entre si o poder executivo, ao contrário do que acontece em Portugal), que permite ao Presidente guardar uma certa distância em relação aos assuntos quotidianos da governação;

– por outro lado, há um «mecanismo de diluição aparente das decisões» (a expressão é de Maurice Duverger), que funciona do ponto de vista da opinião pública, e que favorece indubitavelmente o Presidente.

(Abro aqui mais um parêntesis para dizer que, em minha opinião, o semipresidencialismo francês tem balançado entre:

– um «sistema parlamentar com dominância presidencial», quer quando existe convergência entre as maiorias parlamentar e presidencial, quer quando tem de haver coabitação entre maiorias opostas;

– e uma espécie de «presidencialismo atenuado», como acontece agora com a presidência de Nicholas Sarkozy – em que se verifica, não apenas convergência de maiorias, mas também total sujeição do Primeiro-Ministro e dos Ministros à vontade do PR, ao ponto de todos eles agirem praticamente do mesmo modo que os Secretários de Estado do Presidente dos EU).

5

Fui buscar a frase de Chaban-Delmas (também citada, aliás, por Maurice Duverger num texto de 1986), porque me parece que ela se adequa ao «caso» português, porventura ainda melhor do que ao «caso» francês.

De facto, os Presidentes da República portugueses, na vigência da Constituição de 1976, e do sistema semipresidencial, gozam, digamos assim, de uma espécie de imunidade, ou mesmo, impunidade política – que fazem com que a opinião pública os absolva, por mais crassos que sejam os erros políticos que eles cometam.

Dois exemplos demonstram claramente esta afirmação:

- Primeiro: durante os quatro anos e meio do seu primeiro mandato, o Presidente Eanes foi um factor de instabilidade permanente – demitiu um PM; nomeou três Governos de «iniciativa presidencial»; dissolveu a AR uma vez; convocou eleições legislativas duas vezes; deu posse a nada menos do que sete Governos – e nem por isso deixou de ser reeleito por uma maioria diferente daquela que o tinha apoiado da 1ª vez;

- Segundo: durante o mandato do actual PR, o «caso das escutas belenenses» (como eu lhe chamo), no Verão de 2009: baseado em suspeitas graves e completamente infundadas, deu origem à comunicação ao País mais patética que eu já vi um PR fazer em democracia - mas o certo é que, depois de uma quebra significativa nas sondagens, durante três ou quatro semanas, Cavaco Silva recuperou rapidamente a popularidade, e a opinião pública esqueceu-se completamente do «caso».

6

A frase de Chaban-Delmas aplica-se, aliás, como uma luva ao caso concreto do actual Presidente, Cavaco Silva.

De facto, ao ouvi-lo falar, parece que tudo o que vai mal neste País é culpa do Governo, e o pouco que vai bem deve-se ao facto do Governo ter seguido os avisos e conselhos do Presidente.

Cavaco Silva não se cansa de dizer que, se o Governo lhe tivesse dado ouvidos, o País não estaria no estado em que está – diluindo assim, perante a opinião pública, toda e qualquer responsabilidade política pela actual situação de crise.

(Estou mesmo em crer que, se o resto do Mundo tivesse dado ouvidos ao nosso Presidente, nem sequer teria eclodido a gravíssima crise global em que estamos mergulhados).

7

Há, aliás, um aspecto muito curioso, salientado neste livro por André Freire e António Costa Pinto, que não vou deixar passar em claro.

Os autores sublinham, na página 107: que Cavaco Silva só utilizou «o veto político face a diplomas da Assembleia da República»; e que «as divergências políticas de Cavaco Silva face à maioria parlamentar (expressas através dos vetos) foram apenas nas áreas socioculturais e morais (estilos de vida, «novos temas»: paridade, divórcio, uniões de facto) e nas questões institucionais (Estatuto Político Administrativo dos Açores, etc.), deixando de fora os temas socioeconómicos (que estão no âmago da divisão entre esquerda e direita)».

E mais adiante, na página 114, repetem a dose: «(…) pelo menos tanto quanto é possível inferir do exercício dos poderes de veto», Cavaco Silva «não terá divergido muito da maioria das orientações da maioria parlamentar (do PS) em questões socioeconómicas (o âmago da divisão esquerda-direita)».

8

Ora bem. Tanto quanto me lembro, o candidato Cavaco Silva baseou o essencial da sua campanha eleitoral, há cinco anos, no facto de ser um reputado especialista em Economia e Finanças.

Os seus conhecimentos e as suas competências nessas áreas, seriam a garantia de que o País nunca resvalaria para uma situação de crise maior do que aquela que já enfrentava nessa altura – por causa das políticas de rigor destinadas a reduzir o défice que o Governo de Sócrates herdara dos dois Governos PSD-CDS, chefiados por Durão Barroso e por Santana Lopes.

Foi isto que me pareceu, se a memória não me atraiçoa. Mas, pelos vistos, não foi que aconteceu!

9

André Freire e António Costa Pinto atribuem este comportamento do PR a dois factores: «primeiro, (a) uma significativa inflexão do PS para o centro do centro»; «segundo, (a) um certo centrismo ideológico do Presidente Cavaco em questões socioeconómicas».

Ora, o «centro do centro» é aquilo a que Maurice Duverger chamou o «juste milieu». E, pelos vistos, ele tinha razão quando escreveu, há mais de 40 anos, que «o centrismo favorece a direita».

Vale a pena citar o que ele escreveu no livro «La democratie sans le peuple», publicado em 1967:

«O centrismo favorece a direita. Aparentemente, as coligações do ‘juste milieu’ são dominadas ora pelo centro-direita, ora pelo centro-esquerda, seguindo uma oscilação de fraca amplitude. (…). Estas aparências mascaram uma realidade completamente diferente. Por trás da ilusão de um movimento pendular, o centro-direita domina quase sempre. (…). Em vez de implicar uma transformação lenta mas regular da ordem existente, a conjunção dos centros desemboca no imobilismo, isto é no triunfo da direita».

10

Maurice Duverger também comenta, no mesmo livro, a tendência para «uma esquerdização do vocabulário político», nos seguintes – e bem curiosos – termos:

«O centro quer chamar-se esquerda, a direita quer chamar-se centro, e ninguém quer chamar-se direita».

Também esta afirmação se aplica como uma luva aquilo que se tem passado em Portugal desde 1976.

11

Regressando à actualidade, estamos agora a assistir a um remake da campanha presidencial de Cavaco Silva há cinco anos:

- lá vemos, outra vez, o providencial especialista em Economia e Finanças, que se apresenta como o único candidato capaz de impedir o agravamento da crise (mesmo se é evidente que não o conseguiu durante os últimos cinco anos);

- lá vemos, outra vez, os dois partidos políticos de direita (CDS-PP e PPD-PSD), tal como as confederações patronais, os grandes empresários e vários membros do think tank de direita Compromisso Portugal, a apoiar o grande especialista em Economia e Finanças (que não gosta nada de ouvir criticar os mercados, isto é: as agências de rating; os bancos estrangeiros; as empresas seguradoras; os traders; os gestores; os hedge funds; os fundos especulativos).

- lá vemos, outra vez, órgãos de comunicação social dominados pelo poder económico a «levar ao colo» o candidato da direita, a desqualificar sempre que podem o único candidato de esquerda capaz de fazer frente a Cavaco, e a louvar hipocritamente os candidatos inóquos que podem causar estragos a Manuel Alegre.

12

Toda a direita que apoia Cavaco aposta na dissolução da Assembleia da República, se ele for reeleito, quando chegar o momento oportuno. Sobre esta questão, alguns dos seus apoiantes são mais discretos, outros mais precipitados e inoportunos (como é o caso do dr. Passos Coelho, cuja incontinência verbal é evidente).

(Abro aqui mais um parêntesis para falar da «arma absoluta». É costume recorrer à metáfora da bomba atómica, quando se fala no poder que tem o PR de dissolver o Parlamento. Eu acho que não é a metáfora adequada, porque uma bomba atómica arrasa tudo: os homens – neste caso os Deputados - e os edifícios - neste caso a Assembleia da República - e não é esse o objectivo da dissolução. Seria mais apropriado recorrer à bomba de neutrões, que é uma bomba que arrasa os homens, mas deixa incólumes os edifícios – que é o que se pretende com a dissolução do Parlamento. Mas reconheço que quase ninguém sabe o que é uma bomba de neutrões, e que a expressão ‘bomba atómica’ se tornou popular e já está consagrada na nossa gíria política).

13

À luz da Constituição em vigor – e no sistema semipresidencial que ela consagra – o PR não tem os poderes que o candidato Cavaco Silva aparentemente lhe atribui durante as campanhas eleitorais – e que, depois, quando está em Belém como PR, passa o tempo a dizer que não tem, para justificar o incumprimento das suas promessas eleitorais.

Mas o PR tem, de facto, um poder de influência ainda mais amplo do que aquele que resulta do exercício dos poderes formais que a Constituição lhe atribui – e que também são muito importantes: o poder de dissolução, o poder de fiscalização e o direito de veto, o poder de demitir o Governo «quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas» (até hoje nunca exercido).

É verdade que o PR não exerce qualquer poder executivo (que cabe exclusivamente ao Governo), nem dispõe de poder legislativo (que cabe à AR e ao Governo). Mas a sua legitimidade democrática directa, o facto de ser um órgão de soberania unipessoal, e a possibilidade que tem de se exprimir publicamente perante o País, a todo o tempo e sem intermediários (através de entrevistas, discursos e de mensagens), fazem com que o PR seja, desde logo, um elemento essencial de equilíbrio do sistema político-constitucional português, e deva exercer uma magistratura de influência, baseada no poder moderador, fiscalizador e arbitral que detém.

14

Tudo isto que acabo de referir acentua a importância que têm a personalidade e o estilo de actuação política de quem é eleito para o cargo: seja na configuração do órgão Presidente da República; seja na conjugação dos seus poderes formais e materiais; seja na interpretação que faz dos limites da função presidencial.

O Presidente da República pode exercer, de facto, em Portugal, uma magistratura de influência, designadamente através da sua capacidade de comunicação e de contacto directo com os portugueses, transformando-a, assim, num instrumento de actuação tão importante e tão relevante como o conjunto de poderes jurídico-constitucionais que a Constituição lhe atribui.

Reside aqui, aliás, um dos factores de risco do sistema, na medida em que um Presidente venha a interpretar a sua função como o exercício de um contrapoder, em oposição à maioria que governa o País – e não na perspectiva da lealdade e cooperação institucionais que devem existir entre o PR e o Parlamento, e, sobretudo, entre o PR e o Governo, tendo em conta a necessidade de garantir – e de contribuir para – «o regular funcionamento das instituições democráticas».

15

Como salientam os autores deste livro, os poderes do PR definem-se na prática política. Mas, a amplitude desses poderes depende do tipo de maioria parlamentar que apoia o Governo. Esses poderes serão mais amplos se a maioria parlamentar for relativa; menos amplos se a maioria parlamentar for absoluta mas pluripartidária; e mais restritos se a maioria parlamentar for absoluta e monopartidária.

Parece-me, por isso mesmo, bastante adequada a classificação do nosso sistema de governo semipresidencial como um «sistema parlamentar com correctivo presidencial», tendo em conta: os poderes jurídico-constitucionais definidos pela Constituição; a conjugação entre poderes formais e poderes materiais; a interpretação e a utilização que deles faça cada Presidente; e o tipo de maioria parlamentar que apoie o Governo.

16

Só mais uma observação. A expressão «correctivo presidencial» pode prestar-se a interpretações perversas. Porque não se trata de dar palmatoadas em adversários políticos mal comportados que porventura desagradem ao Presidente. Trata-se, isso sim, de garantir o equilíbrio do sistema corrigindo os excessos – por exemplo, das maiorias absolutas – e os impasses que possam verificar-se no seu funcionamento – por exemplo, na ausência de maiorias parlamentares estáveis e coerentes.

Esse «correctivo presidencial» pode, evidentemente, chegar até à dissolução da AR, ou, em casos raros, à demissão do Governo («quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas»), mas, em ambos os casos, depois de «ouvido o Conselho de Estado».

Mas, o importante é que o Presidente da República adopte sempre, em todas as circunstâncias, «uma posição suprapartidária e equidistante em relação aos partidos políticos, no exercício das suas funções».

17

Em conclusão: continuo a ser um adepto do sistema de governo consagrado na Constituição de 1976, com a revisão que foi realizada em 1982.

Este «sistema «semipresidencial», ou «sistema misto parlamentar-presidencial», ou «sistema parlamentar com correctivo presidencial» – para utilizar as classificações mais frequentes adoptadas pelos especialistas – é bastante flexível e suficientemente elástico para acolher várias soluções governativas. De um modo geral, tem possibilitado uma evolução positiva do nosso regime democrático, no sentido de uma estabilidade política cada vez maior dos Executivos.

Há excepções, evidentemente. E estaremos, porventura, a viver uma delas neste momento. Veremos como tudo vai evoluir.

Lisboa, 13 de Janeiro de 2011
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*Comentador. Antigo chefe da Casa Civil do PR Mário Soares. Intervenção feita na Livraria Almedina (Saldanha) a 13 de Janeiro de 2011.